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sexta-feira, 17 de julho de 2015

SOBRE GRANDES POETAS, E CIRCUNSTÂNCIAS

Fui num evento de Literatura Latina agora, no começo de Julho, e lá alguém, em certo momento, me veio com essa: "os grandes poetas têm temas; não escrevem sobre a própria vida, a não ser esporadicamente", ou algo de teor semelhante. Então fiquei matutando.
Ora, há, de fato, temas que, se têm a ver com a vida de todos os dias, o têm de modo abrangente ou transversal: são os arquétipos. A morte, o tempo, o amor, as vicissitudes da vida, a condição humana... enfim. Creio que normalmente o poeta - aquele que é realmente poeta - escreverá, sim, tendo em mente essas temáticas por assim dizer "maiores".
Mas não dá para ignorar que a vida de todos os dias é, como dito no começo do parágrafo anterior, permeada por elas, pela morte, pelo amor, etc., e se o poeta consegue escrever sobre a sua própria vida e ao mesmo tempo tocar esses temas sensivelmente, ele não está sendo um mau poeta. Ao contrário: ele está sendo o maior poeta que se pode ser - o que sabe alcançar o geral por meio do particular, consagrando este, e vivificando aquele.  

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

SIMPLES E DIRETO: UM FELIZ NATAL!

Só queria dizer alguma coisa que faça aquele que me lê abraçar o espírito da época com tudo o que tem. Mas como não sei se é possível (talvez esteja além de minhas forças), apenas passo por aqui para lembrar a todos que a solidariedade, a fraternidade, o respeito ao próximo, e mais geralmente o amor devem estar na base de tudo o que fazemos, todo o tempo, todos os dias, e com relação a tudo que nos cerca, ao menos tudo o que é vivo (ok. Reconheço: excetuam-se as baratas, os ratos, etc., rs).
Um abraço, de coração,
e um Feliz Natal!

domingo, 1 de dezembro de 2013

NOTAS DO SUBSOLO

Este ano está sendo mesmo feliz em matéria de livros. Hoje foi a vez de "Notas do subsolo", de F. Dostoiévski. Livraço. No começo, cômico e profundo, e do meio para o fim, seriíssimo, desesperado, comigo não contendo o pensamento de que o "herói" da história era um porco miserável. Terminado, me vejo em graves dúvidas. Não sei se o "herói" é assim tão mau... Talvez ele seja apenas fraco, uma vítima. Não sei. O que tenho certeza, porém, certeza tirada agora, dessa leitura (vejam como ela foi importante), é que nós temos de procurar dar ao Outro o nosso melhor. Sim, teremos dúvidas, vergaremos, desesperaremos às vezes, mas há que se ter, lá no fundo, algum fogo que nos faça erguer a cabeça, olhar ao redor, e enfrentar a tudo e a todos com um sorriso. É uma esperança. Terá lastro?

domingo, 24 de novembro de 2013

DO CONCRETO, DO ABSTRATO

Há autores mais concretos, e outros mais abstratos. Os primeiros nos ofertam descrições de visualidades, de cheiros, de sensações táteis, e ofertam um sem-número de observações factuais: em suma, a Objetividade; os últimos nos brindam com mergulhos psicológicos, com abismos filosóficos, com sutilezas de máscara e de visão: em suma, os muitos mundos da Subjetividade.
Poderia citar como concretos Goethe, Italo Calvino e principalmente Hemingway. Como abstratos, Dostoiévski (claro) e Albert Camus.
Devo dizer, sou fã de carteirinha dos abstratos, e confesso que os concretos me causam dificuldade na leitura. Talvez isso se deva à minha personalidade introspectiva e distraída, mas não tenho certeza.
Talvez.

sábado, 16 de novembro de 2013

ALGUMAS NOTAS

O mundo está tão cheio de beleza e de espanto, de maravilhamento, que é até possível passar por ele sem se deixar derrubar quando ele nos corta a carne, e nos rasga e nos sangra, sem que nada tenhamos feito de mal.

Tive uma intuição hoje, quem sabe mesmo uma mensagem vinda do além, de algum além, dentre muitos possíveis: minha literatura e filosofia, se existem, são uma busca desesperada por Iluminação. Será?

Para variar, estou amando de novo, e não a mesma moça. Ninguém entende Vinícius de Moraes como eu entendo...

A música me faz pensar em ti, "Alessandra", nestes dias ela tem me trazido o teu rosto minuto a minuto. E o verso que mais me emociona é: "You know I've seen a lot of the world can do/ And it's breaking my heart in two/ Because I never want to see you sad girl", claro, de Cat Stevens (Yusuf), o "mago" que capturou e escravizou meus ouvidos, desde ontem.

Eu poderia citar também Cartola, e O mundo é um moinho: Ah, como eu queria te proteger, minha linda moça, da mão de pilão do Tempo e da Vida-Realidade, mas... estamos fadados. Eu também.

O Natal vem chegando, e meu coração começa a compassar, e meu sorriso quer aparecer, e minha mão quer ser estendida: a quem?




 

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O LIVREIRO DE CABUL

Terminei esta semana a leitura do livro de Asne Seierstad. Devo dizer que imagino o que - como ela confessou, a guisa de prefácio - a revoltou e fez sentir ódio como nunca sentira antes na vida. De fato, as mulheres são especialmente maltratadas, na cultura afegã. Penso principalmente em Leila, mas poderia citar também Shakila, e outras. E os "meninos" filhos do patriarca livreiro também não têm vida fácil.
Mas o que quero expor aqui é o sentimento muito vivo que esse livro suscitou em mim da viabilidade de outras culturas radicalmente diferentes da minha. Sim, eu vislumbrei um sentido, uma razão de ser, para os costumes afegãos. Consegui enxergar aquilo pelo quê os talibãs lutam, e embora eu defenda uma posição diferente, e muito embora eu execre os métodos de que eles se servem, sou obrigado a admitir que eles têm a sua lógica. Não são macacos.
No entanto, continuo um adversário ferrenho do adágio francês Tout comprendre c'est tout pardonner: procuro compreender, mas me recuso a perdoar.

P. S. Lembrando que o Afeganistão não é só o Talibã, não é nem majoritariamente o Talibã.  

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

CONCLUSIBILIDADE

Quando eu era mais jovem, era relativamente fácil apontar razões e significados para as coisas. E eu tinha uma certeza quase sempre radical delas.
Hoje, aos trinte e seis anos, tudo se tornou tão complexo, há sempre um embate de razões para todo e qualquer fenômeno. A conclusibilidade das coisas vai se rarefazendo, vai se tornando um ponto perdido num horizonte de conjeturas, de silogismos, de induções e deduções...
Quanto mais estudo, mais sei, e menos posso afirmar...

domingo, 28 de julho de 2013

CARLO EMILIO GADDA

Acabo de terminar a leitura de A Adalgisa - Quadros milaneses, de Carlo Emilio Gadda. São contos, no mínimo inusitados, vão e vêm no tempo, e no espaço, e nos eventos, com uma linguagem que no começo parece pedante demais, mas que depois, conforme notamos que o autor sustenta o estilo, se afigura original, forte, mais do que isso: pujante. E tudo isso para não falar na deliciosa ironia de Gadda, seus eufemismos sarcásticos, seus neologismos satíricos.
O livro, ao percebermos que há uma continuação entre os contos, que personagens se repetem, e eventos se encadeiam, poderia ser considerado um romance fragmentário, uma espécie de crônica de Milão, da Milão do início do século XX. E quanta acidez ao descrever essa cidade tão presente nos sonhos dos peregrinos...
Leitura fundamental.

terça-feira, 23 de julho de 2013

O SOCIAL NA ARTE

Começo a trabalhar com mais afinco o social, na minha poesia. Por aqui, dizem os críticos que todo artista que se preze acaba se obrigando a fazê-lo ("se obrigando", claro, se isso já não é natural em sua linha de trabalho, no, por assim dizer, movimento de sua inspiração...).
E a preocupação com o social, pra dizer a verdade, se no início não era grande em meu dia-a-dia, atualmente vem crescendo consideravelmente.
O espanto: como assim não era grande?!

quinta-feira, 18 de julho de 2013

UM MÉTODO

Parece que estou encaixando um método: fixar um ponto de partida, o mais das vezes um núcleo, uma ideia central, autobiográfico, e então enformar, daí, uma peça literária que funcione enquanto tal, isto é, que não seja mera recordação.
Na verdade, vou escrever o "Decamerão da minha vida", cem contos, segundo esse método. Dez já estão prontos, e a maior parte deles já postei aqui. Dos outros noventa já tenho as ideias, falta apenas sentar e escrever. Pois é.

sábado, 13 de julho de 2013

RECEITUÁRIO HORACIANO

E mesmo quanto a fazer literatura, o maior e melhor receituário talvez seja a Epístola aos Pisões, também chamada de Arte Poética, de Horácio. Pois é.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

DE RECEITUÁRIOS...

Estou escrevendo uma espécie de "receituário para sobreviver no mundo-cão." São máximas e conselhos, amorais. Pautados pela eficiência. Pronto. Confessado.
Li, hoje mesmo, no blog da Cia. das Letras, a frase escrita por Leandro Sarmatz, acerca de Italo Calvino: "inteligência sutil e penetrante jamais se colocaria a serviço dessa tarefa [ a de escrever um receituário ]".
Ora, fiquei me perguntando acerca da "tarefa": receituário para fazer literatura, ou qualquer tipo de receituário? Se for o primeiro caso, apoio. Se for o segundo...
Parece óbvio, não é?
E ademais: vá ler Sêneca, ou Cícero, para ver que o "receituário" tem estrada, e não é sem qualidade...

domingo, 23 de junho de 2013

QUANDO EXPLICAMOS...

Quase sempre, há mais de uma explicação para a atitude de alguém. O que ocorre é que se esse alguém é amigo, escolhemos, dentre as disponíveis, a melhor explicação, e se ele é inimigo, escolhemos a pior.
A explicação objetivamente adequada só é viável partindo de quem não tem nenhuma relação afetiva com o(a) analisado(a) (lembrando que inimizade é um tipo de relação afetiva...).

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A QUE MATOU O GATO...

A curiosidade é um componente do afeto, seja ele direcionado ao que for.
Um marido sem curiosidade por sua esposa, ou vice-versa, é um sinal claríssimo de que a coisa está indo para o brejo.
Um homem sem curiosidade por seu entorno, ao menos por seu entorno, está perto de dizer adeus ao mundo. Pode ser que não saiba, mas está.
É preciso ser curioso, mas de modo saudável. Não são necessárias maiores explicações.
Ame o mundo.

domingo, 16 de junho de 2013

SAUDÁVEL LIMITAÇÃO...

Revisando meu romance. Descobri que preciso cuidar bem dele, porque vai ser filho único. De prosa, daqui por diante, só contos.

domingo, 9 de junho de 2013

STEREO FRANZ

Uma peça, ou, mais geralmente, uma obra de arte, para ser de fato significativa deve: a) tocar num ponto importante da vida humana; b) não se resolver por inteiro num esquema; e c) os elementos que a impedem de se resolver por inteiro devem passar ao espectador/leitor a sensação de que estão ali porque têm de estar, isto é, a obra deve ter organicidade.  
Stereo Franz, peça de teatro de 2012, e que, ao que tudo indica, vai abrir temporada brevemente em São Paulo, cumpre com esses três critérios belissimamente. Acabo de assistir a ela ("ensaio" aberto, para alguns convidados, e eu de penetra), e estou de queixo caído. Só posso dizer: do caralho. 
Assista, quem puder.

domingo, 2 de junho de 2013

POEMAS, DE BERTOLT BRECHT

Acabo de ler a coletânea dos poemas de Brecht, da editora 34.
Estou, simplesmente, maravilhado. Quanto despojamento, e ainda assim eficácia poética!
Brecht queria falar para a gente simples. Seus poemas são limpos, claríssimos. E acompanham a sua história (o que, a meu ver, é grande mérito).
Leia, quem puder. O livro se chama Poemas 1913-1956.   

domingo, 7 de abril de 2013

TEXTOS PEQUENOS

Não tenho tido paciência de escrever textos "de fôlego".
Em compensação, os minúsculos (mini-contos, haikais) têm aparecido quase todo dia.
Ontem mesmo, escrevi meu mini-conto de número 200.
Será que dá para viver disso?

sexta-feira, 29 de março de 2013

A PAIXÃO, A VERDADE

Esta é a primeira páscoa em que eu de fato penso na questão da Paixão de Cristo.
Não creio na trindade, não creio que o verbo se tenha feito carne, essas coisas; para mim Cristo foi um grande homem, um sonhador talvez, muito provavelmente um sábio.
Isso posto, como nos ensina o seu calvário!
É o preço da coragem, quando aliada à bondade, e à persuasão. Sim, persuasão, porque se ele não tivesse convencido pessoas e "feito barulho", provavelmente não teria ido parar na cruz.
Jesus, certamente, falava bem. Mas não era uma espécie de "sofista", pois manteve-se fiel às suas convicções, e por isso foi crucificado.
A verdade a qualquer custo. Ou o que cremos ser verdade, a qualquer custo.
A segunda sentença, com sua relativização, já nos conduz a uma reserva... Há custos altos demais, para verdades que insistem em ser subjetivas além do que gostaríamos.

 

quinta-feira, 14 de março de 2013

A ARTE, E OS PARADIGMAS

A Cia. das Letras, recentemente, promoveu um concurso de haikais em seu blog. Já foram divulgados os ganhadores, cinco. Todos poemas que denotam fina sensibilidade, e gosto.
Pois bem. Só que muitos comentaram que os cinco não se enquadravam no conceito de haikai, porque não respeitavam a métrica (5-7-5 sílabas poéticas), ou porque fugiam ao tema, ou porque não tinham KIGO, ou por algum outro motivo. Não sei o que é KIGO. Vou pesquisar. Mas o que interessa, aqui, é a postura estreita, radical, de algumas pessoas quanto a essa forma literária. Digo "estreita" não me referindo ao fato de essas pessoas tentarem ser ortodoxas, mas ao fato de elas só conceberem como haikai aquele poema que se encaixa com perfeição ao modelo. Tudo bem o seu purismo, se for uma particularidade sua, mas se for concebido como lei, aí... trata-se de amarrar o poeta, e o poeta não tolera amarras.
A modernidade é caracterizada, em arte, pela quebra recorrente de paradigmas. Vale, ao menos para nós, ocidentais, a ideia, a realização, a beleza intrínseca, em detrimento da fidelidade a um padrão, algo simplesmente fora do âmbito há, pelo menos, mais de um século.
Eu escrevo haikais. Mas os meus, não são haikais. São poemas de três versos e no máximo dezessete sílabas. Sei lá que nome dar a eles...