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sábado, 25 de maio de 2013

JUVENTUDE F. C.


Juventude F. C.

O campão do Parque Hotel... Ele abaixa, cata uma pedrinha. Toma distância pra cobrança, a barreira logo ali, perto demais – “Eles tão vindo pra frente, ô juiz!” –, e bate... A pedrinha em três ou quatro quiques cruzando a linha do gol, imaginária, que o chão é de terra, e não há marcação. Gol do Juventude... Corre pro centro do campo, os amigos o cumprimentam – “Valeu, Alessandro!”. Placar: doze a cinco. Pros adversários. Restam, no entanto, pouco mais de vinte minutos – “Dá pra virar, dá pra virar!...”. Chuta outra pedrinha. Olha a um canto, na cerca – “Fecharam o buraco...”. Era por lá...
Dia de treino. Amanhã, às três, é jogo contra os moleques da favela lá de baixo. Seu Honório, vizinho deles da Rua Venezuela, e já um velhinho aposentado, aceita o convite pra ser técnico do Juventude. Está lá, entrando no campão, como todos, pelo rasgo na cerca, feita de arame em tela, se arrastando – “Ai...” – ele reclama... mas consegue. Lá dentro, o rodeiam – “Seu Honório, quê que o senhor acha da gente usar um líbero?” – “Seu honório, um vai ter que ficar na reserva.”. Ele apenas olha... – “Hã, líbero? É...” - e olha apenas pra bola... – “Dê cá ela, um instantinho.” – e pede que o goleiro se aprume lá debaixo das traves. Dá uma ajeitada com todo cuidado, limpando as pedrinhas em volta, toma distância... e chuta... pra fora. Pede-a novamente – “só mais uma.” – e desta vez, ela encobre o goleiro... – “Seu Honório, o senhor jogava futebol?” – “Hã? hein, jogar?... assim, que nem vocês...” – e baixando a voz... – “Faz muito Tempo...” – “Mas seu Honório, e o líbero?” – “Líbero?” – “É, a gente podia usar um líbero.” – “Ah, sim! acho bom, muito bom...” - e correndo os olhos lento pelo campão – “Líbero...”. O treino: o ataque contra a defesa, e a tática eles mesmo decidindo, que seu Honório só senta à beira do campo, ao pé duma árvore, e fica lá... Olhando tudo calado, na sombra.
No dia do jogo, de manhã, Alessandro vai à casa de seu Honório, pra lembrá-lo. Lá o velhinho o recebe, e desculpa-se que não poderá ir, que a esposa teve febre durante a noite, e terá que cuidá-la. Nada de técnico... Volta pra casa. Depois do almoço, o irmão é outro: brigam, e resolve não jogar. Nada de goleiro... Vai sozinho, e à uma, hora combinada, está lá, sentado ao lado da trave, esperando os outros. Logo chega o Vaguinho, atacante, meia-direita e ponta-que-sobra, com a bola e os uniformes, e o irmão mais velho, que veio apitar – “Ué, cadê seu irmão?” – já vem perguntando – “Não quer jogar.” – “Vamos lá falar com ele.” – “Não adianta.” – “A gente vai jogar sem goleiro, então?” – “E o Fabiano?” – “Tá sumido. Faz tempo...” – “Sabe onde ele mora?” – “Sei.” – “É longe?” – “Não. É aqui no bairro. A gente pode ir lá chamar ele, é verdade.” – “É, ué. Não custa nada.” – “E o resto?” – “Eles esperam a gente aqui, seu irmão explica.”. Correm à casa dele, que é furão, e às vezes é também a única esperança de alguém debaixo das traves. Chegando lá, estranham... tem um homem de olhos vermelhos na porta – “É o pai dele...” – o Vaguinho murmura... e um pessoal saindo e entrando de lá, sempre o cumprimentando, com ar sério, parecendo triste. Ficam, os dois, um tempo quietos, sem coragem de perguntar, até que o Vaguinho, que é mais de casa, se aproxima – “O Fabiano tá?” – “Tá, tá lá dentro. Entra...” – entram, e descobrem que a mãe dele morreu. E gelam – “É verdade... ela tava doente...” – Alessandro se lembra. Ele aparece – “Fala... que foi, tem jogo?” – “Não! tem não.” – emendam rápido – “A gente só... resolveu... dar uma passadinha aqui...” – “Ué, e cês tão de uniforme por quê?” – “...” – “Querem que eu agarre?” – “Não, acho que não... não precisa...” – “Eu vou lá. Peraí.”. Corre dentro do quarto, buscar a camisa de goleiro. Quando volta, já a vestindo, arriscam os pêsames, e ele aperta rápido as mãos que estendem, olhando pro chão – “Vamos, vamos lá. Que hora é o jogo?” – “Três...” – “Beleza. Dá tempo.”. No campão, o resto do Juventude, o juiz, e a molecada da favela lá de baixo, o adversário, que montava time sempre ali, na hora, com quem viesse, e não tinha nome. Quando Alessandro, que anotava todos os resultados num caderno, com escalação e tudo, inclusive especificando o autor de cada gol, foi perguntar-lhes o nome do time, caíram na risada. Um deles respondia – “Põe aí: sónabuceta!” – e gargalhavam. A administração do hotel, apesar de normalmente cobrar pelo uso do campo, meio que fazia vista grossa pros jogos da garotada, desde que não fizessem barulho, que incomodava os hóspedes. Era difícil, um dos motivos o craque deles, o punheta, que era fominha que só, sendo um tal de – “Tóoca punheta!” – e – “Porra punheta!” – e – “Caralho punheta!” – durante o jogo, que era freqüente um funcionário vir interromper, dizendo que os hóspedes estavam reclamando. Esse era o adversário: sem nome e sem camisa, só palavras chulas. E goleada. Mas enfim: bola ao centro. Começa o jogo... Sofrem um gol. E depois outro. E depois outro. E depois... Placar final: dezenove a seis. Mais um pro caderno de Alessandro, onde já constavam um dezoito a zero, e um vinte e um a um... Voltam pra casa até que felizes: fizeram seis gols!...
Ele ri. Chuta uma última pedrinha, e se dirige à entrada do hotel. Lá, pergunta ao homem detrás do balcão se pode fotografar o campo. O homem ergue a cabeça, medindo-o de cima a baixo – “Ué... e pra quê?” – “Só de recordação. Vinha jogar bola aqui sempre há... Bom, há treze anos atrás...” – “Ah... sei... tá, vai lá. Fica à vontade.” – “Obrigado, hein.”. E volta ao campão, bater suas fotos.

O leitor me desculpe: relendo meu conto, percebo que não tem uma unidade, não tem coesão, e leva nada a lugar nenhum. Mas, querendo alterá-lo, não posso. Me parece que digo o que é necessário, tudo e apenas. São recordações do campão... Recordo derrotas homéricas? Não: recordo seu Honório, que aliás não tinha esse nome, e o verdadeiro o esquecimento já me levou; recordo Fabiano – dele dizer o quê... – e a molecada da favela lá de baixo; e recordo, sobretudo, o Juventude Futebol Clube, que do nome só tinha a juventude, pois não era clube, sendo mínimo o futebol. Na verdade, éramos só um bando de perebas, excluídos das aulas de Educação Física, que não se cansavam de perder e, no fazê-lo, aprender um pouquinho que fosse. Saudades.

terça-feira, 14 de maio de 2013

NA PRAÇA DO RELÓGIO


Na Praça do Relógio

...Na sala de aula, certos arranhões no revestimento da parede lembram os rastros de espuma deixados por um barco nas águas duma baía, outros uma nebulosa ou a própria Via Láctea vista de fora, e outros ainda os grandes lábios de Janaína. No batente da porta, há teias e uma pequenina traça enfurnada numa ranhura da madeira. Engraçado... – “Será que as aranhas não comem as traças?...” – pensa consigo. Inspira fundo... – “E a Via Láctea vista de fora?... Como eu sei isso?... De onde veio a imagem que tenho na cabeça?...”. Expira. Vasculha a memória... – “Talvez uma foto de revista... Com certeza uma simulação... Não dá pra mandar satélite pra fora da Via Láctea...”. Inspira... – “Ou será que dá?”. Medita um segundo... Expira – “Sei lá.” Abre um livro. Doutro lado da sala, um de terno e gravata cochila com a cabeça caída sobre a maleta; lá no fundo, duas outras, uma de saia, outra sem sutiã, discutem sobre o trabalho de fonética que é pra daqui a uma semana, e que ainda nem foi começado, e depois acabam emendando numa troca de receitas de pudim; e mais ninguém. Há rumores de greve, e em situações como essa, sobretudo em noites de quinta-feira, é comum os alunos receberem em seus joelhos a visita duma súbita fraqueza, e então darem o sinal ao ônibus errado, e baterem em casa mais cedo. Fecha o livro, abre o caderno. Rabisca um desenho. Lembra de quando desenhava... Faz muito tempo. Na infância, seus cadernos eram cheios de desenhos de animais selvagens, super-heróis, paisagens... Rabisca um rosto de mulher. Começa pelo nariz (ele sempre começa rostos pelo nariz...), em vista diagonal, uma curva suave terminando num pequenino triângulo, depois o queixo... Pára um segundo, examinando o que fez... – “Deixa pra lá...” – murmura. Abre o livro – “Mal chegou, Drogo apresentou-se ao Major Matti...”. Um ruído de passos incrivelmente decididos vem chegando lá do fundo do corredor e já cruza a porta. Ergue a cabeça: lá estão três membros duma chapa que concorreu e não venceu a última eleição pro Centro Acadêmico... Recebe um panfleto. Um de bigode fala, enquanto o de terno e gravata agora cochila de olhos abertos e as duas trocam receitas por telepatia. Constrange-se e presta atenção ao que o homem diz... Está chamando a todos prum ato na Praça do Relógio, um ato de repúdio à política do reitor que não contrata novos professores, um ato de repúdio à política do estado que não cede aos pedidos de aumento da cota do ICMS pras universidades, por fim um ato de repúdio à política imperialista dos EUA... Ele fecha o livro, enquanto seis olhos acompanham seus movimentos – “Vamos lá, amigos?... precisamos reunir o máximo de alunos neste ato, é muito importante...” – diz o de bigode – “Claro, claro...” – ele responde, juntando seu material, e agora um ruído de seis pés incrivelmente decididos e dois adjuntos percorre os corredores da faculdade. Alguns dois outros alunos são pinçados em outras salas, e já estão nas escadas, fora do prédio. O de bigode propõe irem à ECA – Escola de Comunicações e Artes, logo ali – tentar reunir mais pessoal. Todos concordam. Vão descendo a avenida... o de bigode engatando uma conversa com o outro do grupo dos três, um sem bigode (o terceiro é uma baixinha, que leva uma faixa enrolada nas mãos). Parecem continuar algo que foi interrompido pelas visitas em sala... o de bigode – “Quanto àquela tese do Max Weber, que você falou, de que um país socialista só poderia ser administrado por uma burocracia, e que portanto não seria uma sociedade sem classes, pois haveria uma classe privilegiada, a dos burocratas do Estado, você precisa entender que não precisa ser daquele jeito. Se você pega a obra de Lênin, você vai ver o que eu tô te dizendo. O comunismo que a gente pretende não é aquele da União Soviética, é um comunismo diferente...” – “Sei...” – “É. É possível...” – “Mas seria algo conquistado por meio duma revolução?” – “É. Seria.” – “Tá, e o que vem depois duma revolução não é, via de regra, uma ditadura?” – “E nós vivemos o quê?” – e pára, acendendo um cigarro, mirando o alto, pr’além das copas das árvores. Dá uma tragada funda, depois soltando lento a fumaça – “É a ditadura da burguesia...” – diz, correndo a vista em redor, onde só há árvores, dormindo o sono apolítico dos vegetais.
ECA. O C.A. de lá não está colaborando, diz o de bigode – “Acham que os alunos estão em refluxo... essa é boa!”. Os dois alguns pinçados na Letras sumiram, mas o grupo dos três nem dá pela falta, e segue em frente. Os corredores, e salas, estão vazios. Num mural, o cartaz de Homens de papel, que será encenada no Teatro Laboratório. Finalmente uma sala com aula, em que uma numerosa dezena de alunos ouve letárgica o de bigode chamá-los ao ato na Praça do Relógio, e vai girando a cabeça, de boca aberta, como jacarés tomando sol à beira dum rio, enquanto o de bigode caminha até a porta – “Quem vai nos acompanhar nesse ato?... Alguém?... Pessoal, é muito importante a participação de todos, a nossa universidade está sendo sucateada... Bom, se alguém se interessar, pode nos alcançar no corredor, ok?... Brigado pela atenção.” – diz, e depois vira as costas, e fecha a porta, seguido pelo vácuo silencioso dos olhos lá de dentro. Continuam pelo corredor. Uma sala vazia, outra sala vazia, numa terceira um funcionário corcunda, vestido de azul, passando um rodo no chão. Levanta o rosto na direção deles – “Hã?... Cês tão procurando quem?... Ah... Iii... Tst, tst. Tem aula hoje aqui não, rapaz, só uma ou outra...” – diz, abrindo um franco sorriso de três dentes no rosto enrugado. Deixam-no... na última sala, pelo vidro da porta podem ver um professor velho e calvo, os parcos fios de cabelo completamente brancos, percorrer cuma aluna as linhas dum texto aberto no colo dela, enquanto outros dois apenas ouvem. O de bigode entreabre a porta, e pede licença pra falar rapidamente à turma. O professor assente. Entra, e fecha a porta, o resto do grupo ficando de fora. Fica lá alguns minutos e meio, enquanto observam, de fora, apenas os olhares baixos dos alunos, e do professor. O de bigode abre a porta pra sair, e podem ouvir o professor murmurar – “Boa sorte.” – antes que a feche. Terminadas as salas, deixam o prédio, e estão no estacionamento, lá no fundo o Teatro Laboratório, e à frente, o belo melancólico do vazio da Praça do Relógio. O de bigode se despede – “Bom, gente... é isso aí. Acho que duma forma geral a ação de hoje foi positiva, os alunos nos ouviram...” – “Tanto a Letras quanto a ECA tavam vazias...” – interrompe o sem bigode – “É, tavam... Acho que a gente pode com ações mais incisivas trazer mais gente e formar um movimento mais sólido, é só uma questão de continuidade no trabalho. O pessoal vai assimilando... Bom, eu vou caminhar até a História, alguém me acompanha?... Não?... Então até, pessoal, brigado pela participação, e a gente continua amanhã.” – e sai. Os outros dois, o sem bigode e a baixinha, estão agora de mãos dadas e só então ele percebe que são namorados. A baixinha senta num banco da praça, o sem bigode logo depois, passando o braço pelos ombros dela, e ele pode ouvi-los cantando enquanto se afasta – “Morte bela, sentinela sou, do peito desse meu irmão, que se vai...” – e circunda o laguinho, e pára. Um vento frio vem arranhar o rosto, enquanto apenas olha... longe, as luzes do Shopping Villa-lobos e das dezenas de prédios à beira da Marginal Pinheiros espalham-se pelo rio, e por um brevíssimo segundo, parecem compensar o céu sem estrelas, e sem lua.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

NÁUFRAGO


Náufrago

...Vem pela calçada, apostilas e resumos na mão, musiquinhas pra facilitar a decoreba no assobio. Passa a porta do cursinho, cruza a rua, e senta à porta do bar. Só mais essa vez, como sempre. O peso de oito horas de trabalho parece às vezes maior do que o peso de todo um futuro a escolher. Ou não. Vai ver que é do futuro mesmo que se foge. Enfim, suspira e pede uma cerveja. Dali cinco minutos, chega o amigo – “Mais uma!” – já vem pedindo. Termina um copo – “Só vou tomar essa, depois subo.” – diz, o amigo franzindo o pára-vento – “Ah!... Qualé?... Você não vai assistir aula da Ruth!”. É a de Literatura, algo de que ele gosta bastante, e hoje o tema é José Lins do Rego...
         Ela vai passar o Fogo morto...
         Ah, é?
         Tá na lista da Fuvest...
         Ah, é?
         Vou ver se consigo ler... minha única chance é a USP...
         Ô pedrão! vê mais uma?
Queria ter a inconsciência tranqüila e a aptidão alcoólica do amigo. Mal enche o copo, pede outra, entornando o primeiro:
         Ah!... hoje tá foda...
         Quinta-feira é foda....
         Depois de domingo e antes de sábado é foda...
         É...
         Se é...
Ombros, pernas e braços vão amolecendo...
         Preciso mijar...
         Vai lá...
O banheiro é uma privada branca por fora e marrom por dentro, sem pia. Ele abaixa a cabeça, o mundo dá uma girada meio brusca, ele tenta se apoiar na parede e sem querer aperta o botão da descarga. Um riso espirra por entre os lábios, depois outro, e quando vê está gargalhando... Volta:
         Quer saber, eu subo na segunda aula!
         Grande garoto! Aula da Ruth não dá...
         Me lembrei duma piada.
         Ôpa! manda. Pedrão!... siiipf!
         O português tava chamando o elevador...
Passa a aula da Ruth, depois a segunda, que ninguém se lembra mais de quem é, e estão lá, ele gastando todo o estoque de piadas que só agradam a bêbados, e o amigo rindo às lágrimas. Pode-se ver já um pelotão de marronzinhas sobre a mesa...
         Cara, me bateu uma fome... vou pedir um pastel.
         Pede dois...
Vem o pastel, vai o pastel, desce mais uma, sai pra mijar, volta...
         Cê vai prestar o quê mesmo?
         Engenharia.
         Civil?
         Civil.
         Difícil...
         É. E você?
         Tô entre Economia, Matemática, Física, Filosofia e História...
         Pfuvzzz!...
O amigo cospe a cerveja, e já estão rindo de qualquer coisa.
Onze horas:
         Preciso ir embora...
         Eu também...
         O negócio é pedir a conta...
         Pois é...
         Mais uma?
         A saideira...
         Pedrão! a saideira!
É a rodada das saideiras. Uma, duas, três...
         Pedrão! Agora a últchima.
         Com cherteza...
No ônibus, o cobrador diz que a passagem é dois e sessenta e ele não contém o riso:
         Dois e sessenta, é?
         É...
         Dou dois e sessenta?
         É!
E leva a mão à boca, sacudindo os ombros, em seguida respirando fundo...
         Se você dchiz...
E entrega o dinheiro, passa pela roleta e senta, controlando-se.
Em casa, todos já se deitaram. Sobe as escadas engatinhando, de repente as tripas parecendo sofrer um cálculo logarítmico, e um gosto de fagocitose vindo à boca... Corre ao banheiro, põe a cabeça na privada, e um trem vindo a cem quilômetros por hora, em superfície sem atrito, desliza pela garganta e espatifa-se na água. Pisca lento, duas vezes, observando o conteúdo... lê o futuro: fiapos de macarrão, cascas de lentilha, carnes moídas e cacos de berinjela – “É marcante a tensão entre o positivo e o negativo, entre formas lisas, suaves, e outras recortadas, agressivas...” – opina uma das namoradas de Pablito, quando este lhe mostra uma nova tela, no filme Os amores de picasso. – “Num dá pra entender nada. Acho que vou ser economista, ou crítico de arte.” Segue pro quarto. O que quer que estivesse na cama, foi ao chão. Deita, e está numa balsa, perdido em alto mar. As ondas batem na proa, e lambem o fundo, e o mundo balança... – “Uôoo...”. Uma mais forte golpeia a traseira, fazendo com que o barco embique na água... – “Uôôooo...”. Se debate e agarra à cabeceira – “Vai virar!” – por um segundo seu destino parecendo ser os tubarões. Até que as ondas vão, aos poucos, cessando, e o tempo azulando, e o mar respirando sereno, marolando na quina da cama, e pode largar a cabeceira, e fechar os olhos, e esperar um cargueiro, um coqueiro, ou quem sabe o dia seguinte.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

PASSEIO NA PAULISTA


Passeio na Paulista

...Era uma comédia romântica, como todas as outras. Lá estavam a madura bem-sucedida pragmática que no fundo era uma colegial suspirante romântica, o aventureiro cafajeste niilista que no fundo era um solitário ressentido... romântico, e a dona-de-casa pós-romântica resignada – elo entre os dois – que no fundo era mesmo uma dona-de-casa pós-romântica resignada, único ser, como se vê, em que essência e aparência não se dissociavam. No final, não é preciso dizer, os primeiros se casam, enquanto a última enxuga lágrimas cum lenço branco. É como se o produtor autor diretor ou seja lá que raios quisesse dizer que a vida é isso aí, é sonhar, um pouco depois casar, ter filhos, e, com o tempo, e as quedas que ele gentilmente nos cede, é resignar-se. Ou não. Talvez o diretor autor produtor ou seja lá que raios não quisesse dizer nada, e não quisesse mesmo coisa alguma além de garantir a renda do pipoqueiro. E a sua própria, claro está. O fato é que eu saí de lá sem saber bem o que dizer. Achei melhor, e creio que sabiamente, passar a vez, ou seja, esperar até que ela se manifestasse, o que não levou três passos – “E aí?... Gostou?” – ela perguntou, assim, de olhinhos baixos, como a semear suspiros nos buracos da calçada. Pois é camarrrada amante de leituras densas, eis o que a vida não se cansa de nos arrumar. Devia eu dar mostras de minhas incursões culturais? Ora, qualquer um sabe que não. Há que se proteger a identidade secreta!... Sob pena de sermos interceptados, e neutralizados, como é freqüente. Sei que afastei meu discurso anti-cinema-formulesco-hollywoodiano, que já estava bem me coçando as têmporas, como quem afasta uma mosca varejeira, dessas que batem bem na hora da sobremesa, doidas pra inviabilizar o nosso pão-doce. Confesso: sou fraco. Não posso defender tese alguma. É surgirem na minha frente olhinhos amorosos de sonhadora umedecida, prontos a enxergar nos meus a grama verde onde erguer paredes alvas, telhados vermelhos e janelas floridas floridas, donde se vê dois ou três moleques remelentos correndo alegremente... Ah, camarrrada, que é a verdade? Quem sabe defini-la? Eu não sei, sei é que esse tipo de visão faz todas as minhas convicções parecerem meras rabugices, mesquinharias. É como a natureza, com seus vendavais e terremotos que, quando querem, nos mostram que podemos, sim senhor, pensar o quanto quisermos, e podemos, sim senhor, edificar o quanto quisermos, que, não senhor, não adiantará nada: seremos sempre caniços, e nada mais. Enfim... o de sempre: o chão treme, e meu discurso, meu nobilíssimo vocabulário, vira pó. Olhei-a sinceramente, e respondi – “Gostei. E você?” – ao que ela respondeu, ar de satisfação – “Gostei. Muito.” Acho que fui inconscientemente honesto. Penso que não gostei, mas no fundo devo ter gostado, embora eu realmente discorde disso. Sei lá. Sei é que eu disse que gostei, e ela disse que gostou, e muito, e que então começou a chover, o que me fez refletir que às vezes a vida se assemelha a um filme ruim, e que isso não é mau. Ela sacou do guarda-chuva, prevenida como deve ser, e eu, despre... Bom, banalidades de lado, seguimos em frente, dividindo o dela, calorosamente mudos, nem aí pra tarde que se despedia molhada e cinzenta por entre os prédios. Coisa linda. Seguimos em frente!... Até a esquina, onde vive uma dessas fábricas de hambúrgueres, em que entramos, devo dizer, por sugestão minha. Enfim, mente poluída pede um corpo poluído. O fato é que ela gosta de molho barbecue, eu prefiro catchup, mas isso não tem importância alguma: as batatas-fritas nos unem!... – “Engraçado. Várias passagens do filme me lembraram você.” – ela disse, ao que eu respondi que não sabia bem o que dizer, a menos que ela me dissesse quais passagens – “Ah... não sei... o cara tinha um ar assim, meio outsider, meio desapegado. Sei lá. Quer dizer... no começo, né. Depois deu pra ver que não era bem isso.” No copriendo. Ou melhor: compreendo. Compreendo que ela compreende bem mais do que eu pensava, uma vez mais. Ah... as mulheres... sempre nos analisando, descavando padrões em nosso comportamento, formulando leis gerais pra nossa personalidade. E há quem diga que elas pensam com os ovários. Verdade é que parecem agir assim apenas com o sexo oposto, que no resto... valha-me deus. Eu disse isso? Não, não disse, mas é certo que pensei, sinal não só de que existo, mas também de que, politicamente, erro. Ou não. Sei lá. O que sei é que não disse nada, só tombei a cabeça meio pro lado, dei de ombros e belisquei uma batata, meio sorrindo, ao que ela meio sorriu também. Êlha copriende. Quando saímos, a chuva parara havia algum tempo, e o céu estava começando a limpar-se, deixando entrever quaisquer estrelas, com o quê não pude reter um – “É... apesar de eu ter crescido no verde, isso aqui até que é bonito...” – e ela gostou – “É lindo. Adoro a Paulista.” – e eu arrisquei – “E tá um clima gostoso, agora, né?... Nem calor nem frio... Tá bom pra caminhar...” – e ela, baixando os olhos, num semi-sorriso só de lábios – “É... tá mesmo...” – e eu – “Não é?...” – e ela – “É...” – e eu – “É...” – e ela, num breve, quase imperceptível suspiro – “É...” – e foi quando dum lado eu pensei que ela já estava quase no ponto, e doutro pensei que eu não devia pensar assim, que talvez mesmo eu não pensasse realmente assim, apenas soltasse dessas vez por outra, naquelas, de canto de boca, reflexo dos muitos anos de frases feitas sobre mulher e cerveja, em verdade não sei, sei é que seguimos em frente, em silêncio, mas não daqueles que pesam, ao contrário, são expressão duma certa leveza de alma, leveza um tanto trepidante, é verdade, naquela mistura que todo aquele que já namorou um dia conhece bem, enfim... Seguimos em frente, rumo à Consolação. Até que ela falou – “Mas você disse que cresceu no verde?... Você não é daqui?” – e eu gostei da pergunta, que a resposta que tenho sempre cai bem a dois... Ah, o lado bom de não ter raízes... Sofre-se, é verdade, mas quanto não se tem pra contar, kammarada, quanto não se tem pra contar!... – “É uma história complicada, mas posso dizer que até os quinze vivi no interior.” – respondi, e ela – “Ah, é?... eu também!... quer dizer, só a infância, né. Mas eu também sou do interior. É outra coisa, né?” – e eu me empolguei – “Se é. Onde eu morava tinha um rio enorme e limpo, onde a gente mergulhava, e minha vida era explorar trilhas no meio do mato de bicicleta, atrás de córregos, cachoeiras... Se é outra coisa!... Se é!” – e ela também – “É... onde eu morava era uma chácara, vivia aparecendo bicho por lá, e tinha um quintalzão, eu pendurava uma rede na varanda e ficava lá, viajando... Eu adoro o verde, a natureza, sabe?” – e eu fui em frente – “É... eu também. Não, e a terra? Já reparou que aqui não tem terra?... As crianças daqui nunca vão saber o que é um bicho-de-pé...” – e ela me seguiu – “É mesmo, né... Era gostosinho de tirar...” – e eu emendei – “Me lembro... eu era porcão, tinha tanta coisa pra fazer que achava banho uma perda de tempo. Às vezes ficava três dias sem tomar.” – e ela emendou – “Eca!... eu também, sabia?” – e eu – “Você!” – e ela – “É, ué... Toda criança, eu acho. Tenho um priminho de seis anos que também não gosta de banho, só toma se for comigo...” – e foi quando dum lado eu pensei que o ponto tinha chegado, e doutro pensei que esse tipo de pensamento um dia me levaria à ruína, embora fosse só pensamento, coisa que, efetivamente, ninguém lê, mas enfim, eu tive de dizer, assim, meio entredentes – “É pequeno mas não é bobo, esse seu priminho...” – e ela só sorriu, e eu tive certeza. Veio um cruzamento, Pamplona? Peixoto Gomide? Eu sei lá, sei é que vinha um Corsa, e ela não viu, ou fez que não viu, e já ia atravessando, quando eu a retive pela mão – “Cuidado!” – e ela, tomando, ou fingindo que tomando, um sustozinho – “Upa!” – e me apertando a mão, que não soltou mais, nem eu, e seguimos em frente... seguimos em frente!... diria, talvez, colegialmente. Doutro lado da rua, diante do metrô, sim senhor, a natureza fez seu trabalho, e eu, como sempre, nunca mais quis ter qualquer idéia. Pensar me deprime. Por que será? Estará o problema no mundo, ou no ato?... Sei lá. Sei é que o pátio do Masp, com seu escurinho, devia ser tombado pelo patrimônio histórico, e protegido a todo custo, se é que já não foi, perdoe-me a ignorância, não sei mesmo muita coisa. O que fizemos? Ora, nada demais, por certo, mas é que belo mesmo é só dizer assim, numa curtinha, sem muito bafalhafa, sem muita filosofia, naquela simplicidade que o velho bandeira, sábio dentre os sábios, sempre soube ser o bem maior: a vida é bela. A vida é bela, meus amigos! Esqueçam de Deus, esqueçam do diabo, esqueçam tudo que não interessa verdadeiramente, que a vida, simplesmente, é bela. Enfim, o ponto de ônibus chegou, o dela, obviamente, e ela disse que precisava ir, e eu disse que tudo bem, e ela me pediu que ligasse, e eu disse que com certeza, e ela foi, e eu resolvi que ia descer a Rebouças a pé mesmo, e que ia pegar o ônibus do outro lado da ponte, e que essa noite ia dormir, sim senhor, como havia algum tempo não dormia. 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

NIGHT HOUSE


Night House

...Eles vão descendo a Rua Augusta a pé, o colorido do néon dos letreiros das portas dos puteiros iluminando a calçada. De frente duma barraquinha que vende cachorro-quente e churrasco-grego e x-búrguer e pastel e batata-frita uma loira peituda vestindo uma calça jeans e um blusão de crochê cheio de furinhos por onde se pode cobiçar os bicos dos seus peitos arreganha a boca em direção a um pastel oleoso de frango sentada num banquinho. Mais abaixo um dos amigos entra num boteco pra comprar cigarros. De lá de dentro sai uma loira tingida magra-barriguda que encosta no batente da porta e fala pra ele – “Oi garotão... entra mais e me paga uma cerveja, que tal?” – no que ele desconversa olhando pro chão – “Só tô esperando um amigo meu...” – e ela solta uma risada catarrenta – “Riii... não gosta de mulher não, garoto?” – e volta o rosto pra dentro do boteco gritando com voz esganiçada – “Ele aqui não gosta de mulher não, aí!”. O amigo volta e continuam pela calçada. Doutro lado da rua na porta dum puteiro uma mulata rebola devagar mostrando a calcinha enquanto olha pra ele lambendo o beiço. Um negão com pinta de Richard Pryor pára eles – “Peraí, meus senhores, só um instantinho. Posso interrompê-los um instantinho só?... Tão atrás de diversão, não tão? Hã?... Pois é, posso apresentar aos senhores o meu estabelecimento? Só vou mostrar, não precisam pagar agora. Eu levo os senhores lá dentro, vocês olham, vai ter um show agora com o casal Andressa e Leandro, sexo ao vivo, tá, com penetração, com tudo, daí vocês assistem, conhecem as meninas e, se gostarem do ambiente, vocês ficam. Só paga o que consumir, tá. Vocês querendo ficar, vou cobrar uma consumaçãozinha mínima de cinco reais, mas é só. Vocês gostando de alguma menina, e querendo fechar o programa, o quarto é quinze reais, o resto vocês negociam com ela, ok?... Vamos lá?” – e passam por uma portinha e detrás dela um balcão onde está um sujeito de gravatinha borboleta que carimba os cartões de consumação e entrega pra eles – “Pronto, podem entrar. Bom divertimento.” Entram pelo lado esquerdo do balcão passando por umas cortinas roxas. À esquerda está o bar com garrafas de tudo quanto é bebida e copos de tudo quanto é tamanho e formato pendurados. À direita está um estofado de couro preto colado à parede apoiado em tijolo e indo até o fundo onde mulheres loiras e morenas e mulatas e pretas e novas e velhas usando vestidinhos e mini-saias vermelhos e pretos e transparentes estão conversando e sendo apalpadas e lambidas por homens cabeludos e carecas e grisalhos. No fim do bar de frente pro resto do estofado está o palco iluminado por lâmpadas vermelhas e verdes e roxas e depois dele as escadas que sobem à esquerda em direção aos quartos de cima e as escadas que descem à direita em direção aos quartos de baixo. Das de cima vem chegando um casal e o barman anuncia por um microfone o início do show do casal Andressa e Leandro. Eles dão uns beijinhos na boca um do outro, daí ela tira o sutiã e ele chupa os peitinhos dela, daí ele tira a sunga e ela chupa o pau dele, daí ela tira a calcinha e ele chupa o grelinho dela, daí ela levanta a perna direita e ele mete o pau na buceta dela, daí ela deita no chão e dobra o abdômen erguendo o quadril e esticando a perna direita pra direita e a perna esquerda pra esquerda e ele mete o pau na buceta dela, daí ele levanta ela no colo com as duas pernas bem abertas e a gente pode ver bem que ele mete o pau na buceta dela, daí ela ajoelha e ele ejacula dentro da boca dela, e o barman anuncia por um microfone o fim do show do casal Andressa e Leandro. Depois do show uma puta de sutiã vermelho e mini-saia preta olha fundo nos olhos dele enquanto bebe o que parece ser um Martini. Ele levanta e vai até ela e pergunta o nome dela ao que ela responde que é Andressa e ele pergunta se todas as meninas que trabalham ali são Andressas e ela responde que não que só ela e a do show. Os bicos dela fazem o ponteiro dentro da calça dele apontar o norte magnético e então ele pergunta pra ela quanto é o programa. Ela responde que o mínimo dela são cinqüenta reais e ele diz que só pode pagar quarenta e ela diz que quarenta tudo bem mas só por que ele é bonito. Ela pergunta então se ele quer ir direto pro quarto ou se não quer bater um bom papo antes e ele diz que tudo bem um papo. Eles sentam e ela pergunta o nome dele e o que ele faz e ele diz que melhor mesmo é irem logo pro quarto. Chegando lá ela pede que ele espere um pouco ali que ela vai buscar toalhas e então ele fica lá e cheira o lençol e examina o travesseiro e resolve então tirar os sapatos e as meias e a camiseta e esperar ela voltar deitado na cama. Quando ela aparece ela joga as toalhas num canto e fica junto da porta já tirando a mini-saia e virando de costas e tirando o sutiã rebolando devagar e depois tentando descer devagar a calcinha que fica grudada no rego e ela puxa de leve e depois solta e depois puxa e depois solta esfregando aquela tirinha de pano muito no rego e gemendo que não tá conseguindo tirar e pedindo que ele ajude. Ele vai até ela e ela empurra ele contra a parede e pergunta quantos anos ele tem e ele mente que tem dezoito e ela pergunta se ele tem namorada e ele mente que tem e ela pergunta então o que um cara como ele tá fazendo num lugar como aquele e ele responde que – “Curiosidade. Quero ver como é.”. Ela pisca um olho dizendo – “Entendi...” – e abre o zíper dele puxando o pau dele pra fora dizendo – “Eu vou ter que ser melhor do que ela...” – e então ela abre a boca e engole metade do pau dele chupando indo pra frente e pra trás enchendo o pau de saliva e lambendo e passando a língua no buraco do pau e depois indo pra frente e pra trás de novo e mais rápido e apertando o pau e mordiscando e indo pra frente e pra trás e mais rápido pra frente e pra trás e apertando mais e ele fechando e depois abrindo os olhos e olhando pros pentelhos dela e pensando que ela já deve ter chupado o pau de São Paulo inteira e deve mesmo é ter chupado todo tipo de pau que aquilo é uma puta vadia e que ele não devia tá ali e ela chupa mais rápido e vai pra frente e pra trás apertando mais e então ele grunhe que vai gozar e ela tira a boca e ele esporra nos peitos dela e ela esfrega a porra pelos peitos e pelo umbigo e ele senta no chão, e ela se afasta devagar, e senta na cama, e ele olha pro chão, e ela limpa um resto de porra com a toalha.
Ela deita de lado na cama, apoiando a cabeça no braço, e olha pra ele, esboçando um sorriso, e ele nota que ela é bonita, e depois nota na dobra da barriga dela um brilho de porra que vai secando, e de repente ele sente nojo, e olha em redor, e vê que as paredes são na verdade divisórias de escritório, e de todos os lados vem um barulho de corpos se batendo, e um cheiro de porra que não é só da dele, e o nojo cresce... Ele olha pra ela, e de repente ela é tão bonita, que sente desejo, e sente nojo, e sente raiva, e sente vontade de esmurrá-la... E depois... sente vontade de levá-la ao banheiro, e pedir que se lave, e pedir que vista uma roupa comum, e chamá-la pra ir lá fora comer um sanduíche, quem sabe uma pizza, quem sabe tomar um refrigerante... Ela o observa, parecendo analisá-lo – “Que foi, benzinho?”. Ele responde que nada. Ela diz – “Não esquece que você ainda não me comeu, hein?” – e passa a mão de leve lá embaixo – “Ainda nem tirei minha calcinha...” – e ele apenas a olha... E depois pergunta, a voz um tanto arranhada – “Por que você faz isso?”. Ela desvia o olhar, levantando um pouco as sobrancelhas, e depois baixando, e fazendo um beicinho, e suspirando – “É... não vai acontecer mais nada, não é?”. Ele baixa a cabeça, e lembra de momentos antes em casa... Estava falando no telefone cum amigo do colégio, que o chamava pra ir num puteiro, que quase todos já tinham dezoito anos, só ele que não, mas – “Você pode usar sua cópia falsificada do RG.”. Ele descolava cinqüenta reais com a mãe, e não se agüentava: no banho, batia duas punhetas em baixo do chuveiro. Assim, sem sequer cogitar quem seria a mulher que teria, se gordinha, magrinha, alta, baixa, loura, morena, carioca, paulista, filha única... O que importava é que ela teria uma xoxota, e ele pagaria sem questionar pra fodê-la... Isso foi o que ele, no fundo, pensou, mas agora está ali... – “É. Acho que não...” – ele responde, e ela – “Tst, tst, tst... Que decepção! você parecia prometer...” – “Pois é. Sinto muito.” – “Quer saber, se você parar mesmo por aqui então lá fora eu vou falar pros seus amigos que você não é de nada, mas de nada mesmo.” – “Vai em frente...”. Ela pára, cruza as pernas em posição de meditação, e o olha, sorrindo – “Que acontece com você, hein?...” – “Olha... eu acho... eu acho você bonita. E acho que você devia fazer outra coisa, não sei... isso aqui é... estranho... é deprimente... não sei. Pra ser sincero, só quero dar o fora daqui...” – “Ok!” – e ela dá um longo suspiro – “Fim de papo!”. Ela se enrola na toalha, e pede que ele espere, que ela vai até o banheiro se lavar. Ele se veste, e dali um pouco ela volta, se vestindo também, e dizendo – “Bom, são quarenta reais, né?” – no que ele responde que sem problemas, e entrega a nota de cinqüenta pra ela, perguntando – “Você tem troco?”. Ela olha e sorri – “Safadinho... vou precisar trocar, você espera?”. Por um segundo, o sangue foge do rosto dele. Ela percebe, e emenda – “Pode ficar tranqüilo que não vou te roubar, tá...” – e ele constrange-se que não, quê isso, tudo bem, e ela diz baixinho, num tom de voz que parecia agora estranhamente frágil – “Me espera lá com os seus amigos, que o tempo do quarto já acabou, tá?”. Ele volta pro estofado. No palco, um novo casal faz sexo enquanto dança flamenco. Os amigos o rodeiam, e perguntam como foi. Ele diz que tudo bem, e suspira fundo – “Tô pregado...”. Dali poucos minutos, ela aparece, com o mesmo sutiã, com a mesma mini-saia, exatamente como antes... Só que diferente. Ela estende o troco a ele, e, quando ele pega, ela retém sua mão, acariciando-a de leve, e diz, olhando em seus olhos e sorrindo um sorriso difícil e imperfeito – “Obrigada”. Os amigos o olham, a pergunta vibrando no ar, que no entanto ninguém faz, e ele jamais responde. 

sábado, 20 de abril de 2013

UM POUCO DA MINHA HISTÓRIA...


O primeiro gol

Me lembro... eu completava oito anos, meu irmão seis, e comemorávamos juntos, numa única festa. Vinham os coleguinhas do colégio, pai e mãe convidavam amigos, a molecada podendo usar, abusar e lambuzar – o quintal, que a sala era lugar pra adultos. Uma hora, chegava um vizinho, magro e bonachão – “Ôpa, quem tá fazendo aniversário aí, que ouvi dizer?” – e trazendo embrulhos. Corríamos até ele, e notávamos: um era redondo. Ele estendia os braços, este, o redondo, em minha direção, o outro a meu irmão. Eu pegava, vendo de esguelha meu irmão rasgar o papel de presente, e exibir satisfeito um caminhão cheio de cavalinhos de plástico na carroceria. Eu – “Diacho... quê que eu vou fazer com isso?” – pensava. – “Não vai desembrulhar não, meu filho?” – minha mãe perguntava, o homem sorrindo amarelo, – “Ué, é uma bola, não é?” – eu respondia – “Vou botar lá no quarto, amanhã eu desembrulho...” – e saía. Dias depois, trocava por um estilingue, cum moleque da rua. É como era. Vivíamos numa cidadezinha lá do interiorzão de Goiás, hoje centro do novíssimo estado do Tocantins, onde permaneci até os dez anos, e onde minha vida era correr as ruas de terra batida montado na Caloi Cross, e me enfurnar em trilhas atrás de riachos e cachoeiras, e ir mergulhar da pedra da beira-rio, um pequeno penhasco às margens do Tocantins. Futebol?... nada. Morava defronte ao muro do estádio municipal – só um campão cercado de mato – e meu contato com a bola se resumia a catá-la e atirá-la de volta quando vinha quicar em frente de casa.
Nos mudamos então pro Rio de Janeiro. Lá, invariavelmente, me via obrigado a jogar futebol nas aulas de educação física. E tinha uma participação até que digna de menção: me mandavam à defesa – “Fica aí. A bola aparecendo você chuta pra frente, pro lado, pra onde o nariz apontar, só não chuta pra trás, entendeu?” – um mais velho, dos que eram escolhidos pra escolher time, me dizia, e eu ali ficava, às vezes não contendo um impulso e metendo a mão ou o braço na bola... Pênalti. E xingos, saliva respingando na testa. Às vezes, o professor organizava campeonatos, aos domingos. Eu acordava cedo, preparava um café reforçado, o pai reparando – “Vai aonde, filho?” – “Pra escola. Vai ter um campeonato de futebol.” – “Ah, bom!... muito bom. Faz muito bem em praticar um esporte, você é um garoto muito quieto, introvertido... vai te fazer bem!” - É. Lá eu ia. Separavam os times, jogos de camisa, árbitro e tudo. Prometia a mim mesmo que me esforçaria. Começado o jogo, disputava, roubava a bola do adversário, e disparava em carreira – “É só correr mais que todos...” – pensava. Mas no meio do caminho, parava, olhando em volta – “Cansei...” – dizia, arfando. Um companheiro gritava – “Tá louco?! olha a bola!” – “Ah, é!... a bola...” – já um do outro time passava e a levava... No final, o capitão – “Bicho, você é muito rúim! o maior pereba que eu já vi! quê que cê veio fazer aqui?”.
E foi assim por todo o primeiro ano, até que... aconteceu: numa aula em que o professor cismou de, invés de dividir a turma em vários times, fazer apenas dois, bolão contra bolão. Separavam o pessoal, cada um se posicionando onde quisesse. Olhei: a defesa vazia... – “Ali nunca ninguém quer... e é onde sempre me colocam...” – murmurei – “Pois é pra lá mesmo que vou” – decidia, não sem certo temor. Sabia que lá haveria cruzamentos, e que teria de interceptá-los com a cabeça: eu tinha um medo terrível de cabecear, a bola doía, era dura, e nunca acertava, pegava no nariz, na nuca, e quando pegava, que às vezes, simplesmente passava... Mas neste dia, não: neste dia, qualquer coisa lá dentro trepidava, queria mudar, queria chegar nos mais velhos olhando firme e dizer – “Pereba é a mãe!”. Daria um basta, seria o Interceptador, saltaria olhando pra bola, acompanhando seu movimento, e quando ela chegasse... Pumpf!... meteria a cabeça, a espirrando pra fora, todos boquiabertos se perguntando – “Quem é aquela muralha ali na defesa?”. Ia pra lá, encontrava o goleiro, dois ou três outros zagueiros pernas-de-pau, e um carinha do outro time, já prostrado na banheira antes mesmo do jogo começar. O goleiro me olhava contrariado – “Você não é d’outro time não?”. Respondia que não, no que ele – “Sei... é, fazer o quê...”. Rolava a bola. Logo no comecinho, um deles escapava pela direita e descia em velocidade. Prendia os olhos nele – “Lá vem cruzamento, lá vem cruzamento!” – pensava – “Ele vai cruzar, o desgraçado vai cruzar! olho na bola! olho na bola quando ela vier!”. Assim foi: lá vinha ela. Da linha de fundo, cheia de efeito, em minha direção – “Deixa comigo!” – gritei. Subi, de olhos abertos, esticando a cabeça à frente – “Vou tirar essa bola” – dizia, a frase ecoando em meus pensamentos – “tirar essa bola, tirar essa bola...”. No momento da cabeçada... pois é: o momento da cabeçada... Ventava? Não sei... Não me lembro. Sei que pisquei os olhos e, quando vi, a bola quicava dentro do gol, o goleiro assistindo aturdido. Sim, caro leitor: um golaço! Um pouco tonto com a pancada, olhei em direção ao centro do campo: lá, uma turba cheia de sangue nos olhos, envolta em poeira, apontava pra mim. Tremi – “é hoje... vou ser espancado.” – pensei, e não duas vezes: saí correndo. Um grandão tentava me parar – “Peraí! peraí moleque!” – perar?... me pegassem, era uma vez um pereba. Continuei correndo, em zigue-zague, me esquivando de todos, até que... até que o tal me pegou, e todos me pegaram, e me levantaram, gritando – “Êe! viva! viva o pequeno Zico! é o novo Zico!...” – e me carregaram pelo campo. Quando voltei ao chão...

O que virá, dirão alguns, não é algo decente, algo que devamos ensinar aos nossos filhos. Não duvido. Entretanto, na vida, por vezes em número maior do que gostaríamos, as coisas não acontecem como planejamos, e somos obrigados a adaptar. Se apenas os fortes, e oportunistas, sobrevivem neste mundo, é algo que não sei. Sei que ainda estou vivo. Enfim... o fato é que aquele jogo era um enorme embolado, alguns de camiseta, outros sem, só se sabendo quem jogava contra quem entre os bons. Os perebas... bom, esses compunham a massa disforme, destinada apenas a completar o quadro. Assim, num piscar de constrangimento, de incapacidade de, posto ao chão, dizer a verdade, a visão duma saída relampejou em minha mente – “Não serei mais zagueiro: serei atacante!... é muito melhor, todos preferem ser atacantes. Pelé era atacante, Zico também. Zico... tão me chamando de o pequeno Zico...”.

Quando voltei ao chão, fui à minha pequena área, e mandei uma banana ao goleiro – “Se ferrou! você tava certo: eu era d’outro time!” – e depois corri em direção ao centro do campo. Era o maior, tinha feito um golaço. Um mais velho, dos que eram escolhidos pra escolher time, me dava um tapa no ombro – “Tem futuro, moleque!...”.
É. Tive futuro por mais ou menos cinco minutos. Depois, o jogo continuou, e eu, triste sina, voltei a ser um pereba. Nos dias seguintes, também não deixei de estar entre os últimos escolhidos, o incidente do meu gol sendo logo esquecido. Mas... algo tinha mudado. Eu agora sabia o que era o futebol. Tinha feito um gol!... Só quem já fez compreende. Se as meninas não esquecem seu primeiro sutiã, nós tampouco esquecemos nosso primeiro gol, ainda que... bom, ainda que tenha sido contra. E isso... isso lá também teve suas conseqüências... Passei a evitar me esbarrar com o goleiro pelos corredores da escola, me vendo agora no meio duma situação estranha, complicada: sempre que começava a contar a história do meu gol a um amigo, me entusiasmava, punha ênfase nos detalhes, aumentava, orgulhoso de ter feito um golaço, mergulhando em peixinho, e ter sido carregado dentro de campo; à noite, porém, relembrava, e o saber que eu sabia, a consciência da mentira, me assombrava, corroía. Com o passar dos dias, no entanto, ia descobrindo que as coisas da vida podiam ser descascadas, espremidas, e podíamos mesmo viver delas só o suco, escondendo as cascas e o bagaço. Pegava então meu gol, torcia, recortava, desbastava, imaginando em seguida um alçapão, que abria, e despejava lá os restos de minhas cirurgias. Mais tarde, muito mais tarde, esse alçapão pulsaria, abarrotado, esta uma outra história. O fato é que, fosse eu convidado a escolher uma data, a fixar um dia pro fim de minha infância, e o começo da adolescência, este talvez fosse o dia em que fiz meu primeiro gol. Quem disse que futebol não é coisa séria? 

sábado, 26 de janeiro de 2013

UM POUCO DE QUEM RALA...

Acabo de ver a entrevista com o Rubens Figueiredo, no Umas palavras do Canal Futura.
Professor de Ensino Básico no Rio (há 25 anos), tradutor (já traduziu mais de 70 livros, em pouco mais de 30 anos de "carreira"), romancista e contista, Rubens parece ser, essencialmente, um artífice e um "carregador de piano" da literatura, um trabalhador literário. Ele mesmo diz que seu trabalho como "criador" ocorre nas suas horas vagas, porque na maior parte do tempo é preciso ganhar a vida, é preciso cumprir com as responsabilidades. Que lição para mim, que tenho tempo de sobra, e o passo quase todo lendo...
Preciso escrever mais. Preciso trabalhar, batalhar mais.

A propósito: seu último livro se chama Passageiro do fim do dia, e saiu em 2010 pela Companhia das Letras.

domingo, 20 de janeiro de 2013

ANNA KARIÊNINA

Tolstói era, de fato, um enorme, um extraordinário psicólogo. Seu livro é um exame minucioso da alma de figuras condenadas socialmente, sobretudo a personagem que dá título ao livro. Ao lê-lo, fui me sentindo pequeno como escritor. Serei eu capaz, nalgum futuro, de produzir um estudo tão verdadeiro e profundo quanto Anna Kariênina?...
Minha resposta, no momento, é não, e isso não é mau. Não se deve imitar ninguém, ao criar. E minha alma é realmente em muito oposta à de Tolstói. Ele é um analista, e eu sou sintetizante. Isso, esse pensamento, muito me alivia, porque saio da leitura de Anna me sentindo como um barquinho de papel arrastado pela correnteza que a chuva produz à beira de uma calçada, chuva e correnteza que são, a um só tempo, Liev Tolstói.
Até as "revoltas" modernistas, ninguém escreveu como Tolstói, ninguém foi tão longe, tão exato, ninguém problematizou nem representou tão bem quanto ele.
É, sem dúvida, o grande mestre do Séc. XIX. Esse devia ser seu sobrenome.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

APRENDENDO COM TOLSTOI, E O XIX...

Anna Kariênina e o XIX estão me ensinando muito. Sim, estou lendo o livro de Tolstói.
Como ele vai fundo na alma, sem grandes virtuosismos de linguagem! Suas imagens são às vezes até simplórias, e muitas vezes nada originais, mas isso, é incrível, não pesa nada contra ele.
Anna Kariênina parece ser uma catedral (como Proust quis que a Recherche fosse...), só que construída à base de madeira e couro de renas.
Mas... ainda não terminei. Vejamos o que nos aguarda. Postarei aqui mais comentários.

domingo, 6 de janeiro de 2013

ATITUDE DE ARTISTE

Certo executivo de uma editora não muito grande aqui do Brasil produziu, recentemente, uma pérola que dizia mais ou menos assim: "O problema é que os escritores brasileiros escrevem para os amigos, escrevem para ganhar o Nobel, e não para vender".
Ora, ora. Me parece óbvio que num país sério o escritor artiste, aquele que escreve pensando principalmente na qualidade dos seus escritos, na sua originalidade, na sua perspicácia e acuidade quanto ao que nos faz humanos, esse escritor deveria vender mais que aquele que explora nichos, preconceitos, vulnerabilidades diversas, do mercado e do público leitor, com o intuito claro de fazer dinheiro. Estarei errado? Será o certo a segunda opção?
Claro, a situação atual desespera quem quer a qualidade, situação em que vingam venenos alegadamente doces de escorpião e muitos tons de cinza, mas... o escritor dotado realmente de ideias e de boa-vontade deve, penso eu, abraçar a causa da educação do público leitor (por mais desprezível que seja a verticalidade inerente a essa atitude). Isso implica muita batalha, sobretudo de... marketing. Sim, marketing.
Se fizermos um bom trabalho nessa esfera, creio que com o tempo os autores de qualidade venderão mais e mais.
É uma esperança. De artiste.

domingo, 16 de setembro de 2012

Picôolé

...Foi o Evandro - Vandrinho, como todos o chamavam - um sabadão desses voltando da praia com o isopor vazio, um sorriso em forma de andorinha na cara, quem deu ao Pedro a ideia de ir vender picolé lá em Itaúna. - "Quanto você conseguiu hoje?" - "De lucro, dezoito reais!" - "Dezoito?!... Puxa!..." e aquele "puxa" trouxe toda uma contabilidade consigo... Dava pra realizar um sonho: comprar uma guitarra Insbruck, daquelas que eram anunciadas nas revistinhas de letras cifradas. Custava R$ 180,00, era juntar dez sábados, ou cinco sábados e cinco domingos, e tava feito o negócio! Não precisava nem comprar um isopor, pois havia um dando sopa em casa. O que faltava era o dinheiro pro investimento inicial, e pra isso num tinha jeito, o caso era de pedir pros pais mesmo. Emprestado. Emprestado, ele frisou bem. O pai deu, mais pra se ver livre da insistência do garoto do que botando fé que ele ia conseguir pagar. Deu dez reais - "Se você for sábio, e der duro, com isso você consegue a sua guitarra." - ele disse, mais pra cumprir um dever pedagógico do que convicto do que dizia. No domingo mesmo, dia seguinte ao dos dezoito reais de lucro, o Vandrinho levava o Pedro na sorveteria onde ele comprava os picolés. Dez reais davam pra vinte picolés, que, sendo vendidos a um real cada, renderiam vinte reais, dez de lucro. Ele pagaria o pai, e repetiria a operação no fim de semana seguinte. Não é preciso ser gênio matemático pra perceber que seria possível, com alguns dias de vendas, aumentar a quantidade de picolés, e consequentemente o montante de lucro. Chegando na praia, ali em Saquarema, no canal que separa a praia da vila da de Itaúna, os dois amigos se separam - "Eu vou fazer a vila" - diz o Vandrinho - "E eu vou pra Itaúna mesmo" - "Boa sorte!" - "Boa, pra tu também" - e lá se iam os dois. O Pedro sabia que o Vandrinho voltaria com mais dinheiro do que tinha quando foi, ele só não sabia como o menino fazia isso... Enfim, lá ia o Pedro, atravessando o canal. A praia tava cheia, isso era muito bom. Mas... aqui vale desenvolver toda uma tese sociológica: a dos esquemas de comportamento. Quando se é novo num negócio, tende-se a seguir o esquema já pré-existente naquele ambiente; bom, pelo menos esse é o caminho dos tímidos, por ser o mais seguro - o tímido está sempre se perguntando "o que vão achar de mim?", "o que fulano vai achar?", "o que beltrana vai achar?", e se ele fizer igual ao que se fazia antes dele, ninguém vai poder achar nada de ruim dele... Pois é, e o esquema mais simples ali, o mais neutro, não precisa esperar os picolés derreterem analisando, era gritar picolé e esperar ser chamado pelos banhistas. Os mais caras-de-pau, e portanto os que vendiam mais, abordavam - "Vai um picolé aí, moça? Vai um picolé, senhora?" - mas o Pedro jamais, jamais teria coragem de fazer isso. O negócio pra ele era gritar mesmo. Mas... e pra gritar?... Ele tentou uma vez - "Picolé!" e saiu baixinho, e como se ele fosse um galo matinal, logo um outro menino respondeu cum altíssimo "Picôolé". Ah!... Isso sim era grito de vencedor, digo, de vendedor de picolé!... O acento não era no "lé", mas no "cô", quem teria sido o gênio da propaganda que inventara aquele deslocamento de acento?... Bom, isso quem pensa sou eu, agora, escrevendo o conto, que o menino Pedro, nos seus doze anos de idade, não pensou isso não. Ele pensou mesmo foi um palavrão no lugar de "gênio". Que dificuldade!... Outro problema: ele não conseguia andar no meio do pessoal pegando sol, era ficar desviando toda hora, e as pessoas olhavam pra ele, e aquilo, aquilo... Aquilo era de matar prum tímido, ultra tímido!... Mas ele precisava tentar, precisava lutar!... Uma saída: andar na parte molhada da areia, onde aqueles restinhos de onda vêm acariciar os tornozelos das pessoas, e ficar sem gritar mesmo, já que não conseguia, de jeito algum. Até que - Shazam!... - ele ouvia uma voz de mulher - "Garoto! Ei, garoto! Você do picolé!" - era com ele mesmo, uma venda, uma venda!... - "Oi dona..." - "Quanto é o picolé?" - "É um real..." - "Tem de quê?" - e ele abria o isopor, e de repente, de repente... deitada, do lado da moça que comprava um picolé dele, tava uma outra moça, de barriga pra cima, joelhos dobrados, e um pequeno problema no biquíni: o fio que deveria estar tapando a vagina não estava exatamente no lugar, mas sim um pouco pro lado, e então... E então o pinto do Pedro, que já não era mais tão pequeno - ele tinha doze anos... - ficou duro. A moça que comprava o picolé viu, e deu uma risadinha só de ar. Ela viu o pinto dele duro, mas não viu a razão. O menino não conseguia se controlar, suando feito um cavalo de corrida, até que a compradora do seu único picolé se condoeu dele e disse - "Vai lá tomar um banho de mar, vai. Eu olho o seu isopor..." - e ele assentiu, e foi. Mas não tinha jeito, ele precisava ir logo pra casa, resolver aquilo... Voltou, pegou o isopor - "Brigado, moça" - e arriscou mais uma olhadinha... Não... a xoxota que ele vira já estava coberta... Pra casa, então!... Ele precisava dum banheiro, urgente! E foi assim que o Pedro chegou em casa cum sorriso de condor - "Quê isso, menino?" - perguntou a mãe - "Vendeu tudo, pelo jeito?..." - "Nada mãe. Vendi só um. A praia tava vazia. Preciso dum banho, suei muito." - e a mãe nem se tocou que aquilo era a coisa mais estranha do mundo, o filho dela dizer que precisava dum banho.
Pois é, amigo, iniciei novo parágrafo, pois o que aconteceu na sequência os homens que já foram adolescentes tão cansados de saber, e as mulheres cuja experiência ao lidar com o sexo oposto é pelo menos razoável também. O fato é que depois do banho, o menino Pedro pegou o isopor, sentou-se na frente de casa, e chupou os dezenove picolés, feliz da vida, e eu tenho pra mim que ele ter esquecido da guitarra num vai deixar ninguém intrigado...

terça-feira, 3 de julho de 2012

NOVO BLOG

Pessoal, tenho um blog novo, com uma proposta diferente dessa aqui. É um blog de crônicas sobre literatura e vida de escritor/leitor. São textos mais longos do que os que eu ponho aqui no "filósofo", mais trabalhados e abrangentes, eu diria mais formais. Deem uma olhada, quando puderem: georgicasdoocio.blogspot.com.br
Abraço.

sábado, 26 de maio de 2012

LITERATURA COMO UMA FORMA DE ASCESE

Escrever é muito, muito difícil. Escrever com originalidade, muito mais. Escrever com originalidade e beleza, uma tarefa hercúlea. E escrever com originalidade, beleza e acuidade (imprescindível na arte literária), aí... quase impossível. Mas há pessoas que conseguem. Pergunto: conseguirão sem esforço?
Há poetas - eu entre eles - que escrevem um poema em quinze minutos. Mas isso só acontece num estágio que sucede estudos prolongados e extenuantes, toda uma vida dedicada à descoberta e ao aprimoramento de uma voz literária. Uma vez encontrada essa voz, e lapidada, pode-se dizer que se torna mais fácil (menos difícil) a escrita (esclarecendo que não é porque determinada escrita se realiza rapidamente que se possa chamá-la de "fácil". Eu sou um que despendo uma quantidade enorme de energia em dez minutos de criação poética).
O fato é que são necessários anos e anos, décadas, para formar um escritor digno de ser lido. E uma solidão imensurável, toda uma gama de infelicidades e sofrimento que apenas em poucos casos acabam por se tornar benfazejos. Assim, se alguém enfim descobre que é um escritor, esse(a) "louco(a)" já está tão acostumado(a) a sofrer, que consegue (e só assim se consegue) enfrentar o processo de criação literária com "sucesso" (essa palavra tão na moda).
Ou seja: escrever é uma forma de ascese, e o artista da palavra tem de ser um asceta.  
O estudo escrito da alma humana só se transforma em arte após seu autor perder o que convencionalmente chama-se de felicidade (inclusive a esperança de). Após ele se metamorfosear completamente em freak. Após a vida, em quase todos os seus aspectos e vertentes, derrotá-lo inapelavelmente.
Só então ele vence.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A CONDIÇÃO HUMANA, de ANDRÉ MALRAUX

Excelente livro.
No começo, um tanto opaco, ao menos para mim. Mas depois... iluminador. Comovente.
Trata da insurreição chinesa de 1927 (ou seria 25?). Comunistas esmagados, porém temporariamente, como bem demonstrou a revolução de 49.
Iluminador por me revelar que por meio da dor se pode atingir a construção de uma vida plena em significação, ao se saber por que, e por quem, e contra quem, lutar.
Comovente por mostrar a extraordinária força moral, a abnegação, de pessoas que traçaram para si mesmas esse caminho.
Recomendo.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

MINI-CONTO: APARÊNCIAS, VERDADES E CONTINGÊNCIAS

Dora fazia natação, hidroginástica, e tinha um personal trainer;
Amanda trabalhava numa agência de modelos masculinos;
e Carolina fazia ponto e cruz em casa, cercada de empregadas.

o óbvio:
Dora jamais teve qualquer coisa com o personal que não fosse profissional;
Amanda não namorava, e não transava, com nenhum modelo,
pelo contrário tinha namorado fixo e era só dele;
e Carolina tinha três amantes, fora o marido bonachão.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Outro: A cenoura e o burro

A CENOURA E O BURRO

ele lutou durante anos a fio por sua utopia,

até perceber que sua concretização era iminente,
e seguir o caminho oposto, levado por uma lógica implacável.

Um mini-conto: Mau partido.

MAU PARTIDO

a desgraça de joaninha foi ter-se "enrabichado" pelo jeremias:

pediu-a em casamento, deu-lhe casa, mesada, três filhos,
e o rogério - um cunhado alto, de corpo atlético e olhos azuis -,
que a levaram à sepultura antes dos quarenta.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Conto breve: O escorpião

ele pode estar nos armários, nas gavetas, debaixo do fogão, dentro das meias, dos sapatos... nem sempre me lembro de olhar, distraído com as minúcias do quotidiano, mas quando começo uma calmaria, uma não-preocupação, um não pensar em nada, não consigo sustentá-lo, ele me vem à mente, e com ele o medo, medo não: pavor, pânico, o pequenino ser, quase um autômato, quase desprovido de cérebro, surge em sua qualidade de déspota implacável, dono de minha vontade, eu, que sou infinitamente mais capaz e complexo do que ele... ele surge, em imagens detalhadas, em situações dessas de qualquer thriller, ficções que minha mente tece, para dar corpo, para pintar a dependência que me liga ao insignificante animal, dependência de sua não-aparição, de sua completa ausência, oxalá inexistência, se isso fosse possível... sempre preciso me concentrar, e esperar por um longo tempo sem a visão dele... quanto maior o tempo, mais fraca vai ficando a dependência... mas...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Um dos fragmentos mais belos que li recentemente...

Do livro Desvario, de David Grossman (traduzido do Hebraico por George Schlesinger):

"Ela vai ao encontro dele, dispara ao encontro dele, olhos fixos no caminho, boca tensionada. Daí a pouco essa boca será beijada e há de relaxar, engolir, arder, os lábios deslizarão sobre aqueles outros lábios, de início apenas superficialmente, tocando sem tocar, então virá uma língua e desenhará seu contorno dando voltas e mais voltas, e os lábios tentarão não sorrir, e logo se ouvirá um murmúrio de prazer, não se mexa enquanto eu desenho, e de dentro dela sairá um grunhido de concordância, e aí os lábios dele se fixarão nos dela e, com toda a sua agressividade ríspida, masculina, vão sugá-los; depois se afastarão por um instante, deixando passar um suspiro quente. Por fim, os lábios vão se encontrar de novo, agora com a solenidade de um desejo realmente intenso, as línguas se entrelaçando como se fossem criaturas com vida própria, e os olhos dela se abrirão por um breve momento com um suspiro suave, os globos oculares se revirando um pouco para em seguida sumir. Sob as pálpebras semicerradas se revela uma brancura vazia, assustadora."

sábado, 4 de dezembro de 2010

Outro mini-conto!

Quem é o bode?

Júlio César tinha uma coleção de discos impecável,
egrégia, preclara, conspícua!
todos comentavam no bairro onde ele morava!

os amigos, no entanto, com o passar dos anos
foram deixando Júlio César,
até não restar um sequer.

ele então riscou os discos um por um,
e passou a se divertir ouvindo as músicas pularem.