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sábado, 14 de março de 2015

PARAFRASEANDO MILTON


CARTA A UMA JOVEM ATRIZ

Se eu deixasse meu trabalho,
Meus estudos, meus projetos,
Tudo, tudo, para trás,
Acreditarias mais em mim?
Pois é assim que me sinto,
Hoje, neste sábado uma vez mais solitário...
Sinto como que uma enorme mão
A me apertar, a me espremer
O corpo inteiro, o corpo inteiro...
E como sei que tu também sentes a vida,
Sim, tu sentes o peso dela,
O desmedido peso dela,
Dela que nem sempre dá,
E muito e amiúde cobra pelo que não deu...
Que tal corrermos, então?
Simplesmente corrermos, de mãos dadas,
Sob a chuva ou sob o severíssimo sol,
Preocupados em nada mais que não desencontrar
O passo, o ritmo um do outro?
Posso ver-te, agora,
Lá fora, sorrindo ao meu lado...
Eu correria até o fim, amor:
Até o fim.

domingo, 26 de janeiro de 2014

POEMA

Lá vai o poema:

Nada desse mar de nada
faz esquecer que pouco além
das nuvens e das trovoadas
hei de encontrar também
o doce som de tuas risadas
e o toque morno de tua língua
aprisionando forte a minha
numa lentidão destilada:
vida evaporando-se dorida,
vida condensando-se carícia.


sábado, 21 de dezembro de 2013

A LADAINHA

Vida vai, vida vem,
e o Homem mal se sustém,
cara colada no vidro
dalgum maltratado trem,
indo para não sabe onde,
buscando não sabe quem:
ele vai, e ele vem.

Ontem eram planos
de alegria desvairada,
hoje são desenganos
afogados em barro-água:
o Homem vai, o Homem vem,
e é tudo para nada.

Caberia perguntar
se vale qualquer coisinha
a dor de ver o mar
ouvindo a torpe ladainha
da falsa Iemanjá
costurando falsa bainha:
ela ia, e ela vinha.

Ontem eram desenganos
em barro, e água, afogados;
hoje são muro branco
bem cagado e catarrado,
pelos tristes malandros
da viela aqui de baixo.

Caberia perguntar
se o tempo vai brindá-los
com esse mesmo catarro
que a gentileza me dá:

que ele venha, meu pai:
mas que ele vá!







sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

PARA "ELA"

Está começando...
Estará mesmo?
É tão difícil acreditar...
A vida é tão pródiga
em maus desfechos,
em más revelações,
em falsos encontros
de falsas almas gêmeas!
Mas teu sorriso me disse,
ali, quando eu passava,
que nalgum ponto de teu coração
meu nome pode estar batendo...
E eu tenho que te dizer,
então,
que faz algum tempo o meu próprio
coração
procura pelo teu nome.

Algum dia, vou perguntar.
E seja qual for,
uma rima é garantida:
...

domingo, 8 de dezembro de 2013

PARA 2014

Se 2014 te der motivos para sorrir,
sorria, e sorria;
mas o faça de modo especial,
quando a situação for propícia,
e encontrar em teu coração
disposição para tanto.
Não te negues isso,
em hipótese alguma,
pois um sorriso perdido
leva embora a alegria
que te era destinada.

Se 2014 te der motivos para chorar,
chore, e chore mesmo;
chore no quarto fechado, a sós,
mas chore principalmente na frente de todos,
porque só assim se vence a tristeza:
quando não se foge dela,
quando não se esconde as suas cores
no porão do quotidiano,
dos "bons dias", "boas tardes" e "boas noites":
na trincheira do não-viver.

O principal, no entanto,
é não esperar o que 2014 tem
para te dar:
é abraçar o ano que chega
fazendo a promessa
de pegar na enxada,
e ir à roça,
plantar o que certamente
você há de colher,
se ao calo da mão
vier se unir a bênção da Mãe-Natureza.

Oxalá ela venha,
em 2014!

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

SE VC QUER SER MINHA NAMORADA...

Se você quiser ser minha namorada,
prometo te dar, como um travesseiro,
o lado mais à esquerda
do meu lado esquerdo,
e pôr no serviço de teu cuidar
o meu já tão tatuado
braço direito.
Tatuado pelo tempo,
por um sem-número de "Marias...
e Clarices",
que se deixaram varrer
e carregar pelos ventos
do Devir.
Impossível apagar esses nomes,
para escrever o teu de maneira
mais límpida.
Antes: escolher uma cor a mais berrante,
e cruzar a pele de cima a baixo
com referências de nossos encontros fortuitos,
de modo a não deixar dúvidas
sobre quem trará alívio - enfim eficaz -,
à dor que me consome,
e me nega a paz.


 

sábado, 14 de setembro de 2013

UM ANJO

Olha em meus olhos, anjinho,
Ou pousa tua mão delicada no meu lado esquerdo:
Tanto faz: é sempre a mesma pulsão,
Doída e desesperada,
De te ver sair, e mergulhar no mundo
Do incerto, do "quem sabe voltar a ver"...
Não suporto.

És tão, tão linda, anjinho,
Frágil e pequenina, tal flor recém-colhida,
Que me dá uma loucura de abraçar-te, e beijar-te ensandecido...
Voltarás um dia?
Estarás casada, com filhos, torradeira, carreira executiva, insights e cheque especial?...
Confesso: podia esperar-te três ou quatro séculos...

Mas tu foste embora, e não mais te vi...

Será que tomarei coragem, quando voltares,
E mostrarei aos teus olhos ainda tão juvenis
O quanto este verde par de velharias
Sofre por te ver?

Não sei.

Deveria?
Talvez.

Mas deixo, e é uma certeza,
Aqui este poema,
Para que em algum lugar, algum anjo de fato e de verdade
Concorde com ele e faça-o chegar até os teus ouvidos:
Seria como erguer uma ponte
Por sobre a solidão inexorável.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

UM POEMA PARA A ÁGUA

                                                               gosto de mirar as ondulações
                                                               que o vento produz ao roçar a água;
                                                               vibram-me silenciosas canções,
                                                               e vou-me a pensar simplesmente em nada...

                                                               gosto de ouvir o barulho do mar
                                                               acariciando bruto a areia,
                                                               bate-me suave e triste uma calma
                                                               de sermos um só, eu e a Natureza...

                                                               gosto, no calor, de molhar o rosto
                                                               e deixar o frio amansar meu corpo...
                                                               são os belos lugares feitos d’água

                                                               que eu pude, desinspirado, compor,
                                                               só pra lembrar, com todo meu ardor,
                                                               que a vida, pra vingar, há que regá-la.

sábado, 18 de maio de 2013

VIDA


                                                                 VIDA

                                                               Ela chegou assim, de manhãzinha,
                                                               aérea e leve, misturada ao toque morno
                                                               do sol que despontava: ela chegou,
                                                               e aos poucos vem me dando casa...

                                                               No rosto, traços de um país distante,
                                                               e no nome um delicioso gracejo...

                                                               Se eu me ocupava com outras rimas,
                                                               em alpinismo desesperançado,
                                                               posso, agora, fincar o meu traçado
                                                               em mais quotidianas linhas:

                                                               as que um sorriso faz,
                                                               as que, ponto a ponto, vão se firmando,
                                                               quando olhar encontra olhar...

                                                               E assim termino este poema:
                                                               com a lembrança de algo que se inicia,
                                                               sempre que os tenho, os olhos dela,
                                                               me procurando pelas cercanias:
                                                               uns chamam um tipo de jogo
                                                               – eu chamo um tipo de vida.   

quinta-feira, 9 de maio de 2013

NO AR...

No ar, um gosto de espera,
de promessa de chuva e de verde;
no ar, teu nome, ritmado em meu peito...

como causa, e como efeito,
teu nome cerca minha noite e meu dia,
e dos vagões a mim atados, meu fardo,
ele, teu nome, suave me alivia...

Ah... Samira...
Teu nome eu respiro,
e no ar desse momento
consigo repelir o esquecimento,
do modo mais preciso:
sorvendo o ar de teu nome,
grudado às paredes e ao chão,
da falta em que habito.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

A SAUDADE

Olho o mar, verde esmeralda,
Mas não há mar, nem cor alguma.
Olho o céu, todo estrelado,
Mas não há céu nem estrelas, apenas brumas.

Olho... a ti, Samira,
mas tu não estás, só longe, muito longe...
Enquanto meu coração bate descompassado,
como se tivesses a cabeça pousada em meu peito:
Mas não há peito... só o gasto tambor
de uma saudade que cisma em ver o que não há,
porque sabe o que é preciso
neste agreste meio de caminho.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O NOME

Te procuro, vida,
em sonho, envolto em treva,
e quanto mais minha alma precisa,
mais é certo que tu não te entregas...

Quero teu beijo, vida,
quero o toque dos teus dedos,
mas, quanto mais anseio, e anseio,
menos tu te arriscas...

Teu beijo...
Como desespero! e meu olhar,
diante de tua imagem, sempre a mesma,
afasta tudo que não é sonhar...

Sim, teu beijo.
E tua pele junto à minha, despida:
é o que minha língua desenha,
quando diz teu nome:
calor que me consome,
doce e terna cantilena,
- eu disse "vida"?
Não é certo...
És bem mais que isso...
És, simplesmente... Samira.

      

quinta-feira, 25 de abril de 2013

REMINISCÊNCIAS

Olho a tua foto, e vem o tempo,
como voz distante, sussurros a viajar
até mim, a me trazer, nas asas de anjo,
a dúvida e o sofrimento: a forja.

Lembrar de ti é lembrar de mim,
há muitos e muitos sóis,
há inúmeros começos, e tão chorados fins...

Lembrar de mim é lembrar de ti,
hoje, e sempre, teu sorriso
desenha minha lágrima, e ela o muito que vivi...

Unidos,
como o céu e o mar em seu beijo azul,
vamos construindo nossa história,
e se ela aponta, sim, para o futuro,
traz, também, relíquias já bem velhas, de volta...

Relíquias de mal de amor...
Relíquias de um poeta, e de escrever: a sua dor.




sábado, 20 de abril de 2013

LUA NOVA

Me abraça, lua nova,
faz de meu ser uma festa,
com tua feminilidade agridoce,
com os teus roçares de pétala; 
já não vejo tuas pegadas
na terra à minha volta,
já não tenho tuas cores 
a me ditar a boa rota:
me abraça, então: é só o que importa...

Eu quis, um dia,
ser o louco da floresta,
cheio de visões, 
todas mui belas, 
mas sem serventia,
já que não se vive,
já que nada mais se espera...

Hoje, aqui,
ofereço essa sensaboria,
esse falso balançar das árvores,
em troca da certeza do vento,
em troca da certeza do mármore.
Saberei, sem ver,
que és tu à minha porta,
e então... nos abraçaremos,
e será isso, tudo o que importa.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

MEU AMAR-TE

Sonhei que era só,
sonhei que era perdido:
cercado de brumas,
não estava contigo.

Enquanto o mar, ao longe,
dita canções ao monge,
eu, sem tua doce voz,
vou compondo um "nós",
sem saber ao certo
se teus sonhos de flor,
se teu pensar, teu universo,
abraçariam meu calor...

E meu calor é antigo...

Chegará o dia de perguntar,
chegará a vez de ouvir;
hoje, porém, ponho-me aqui,
como em cordel a falar
o que possa, sem nenhuma dúvida,
dar-te a imagem de minha ternura,
a mais bela de minhas artes:
o meu sincero amar-te...

Sonhei que era só,
chorando por um abrigo;
sonhei que era só,
então fui atendido: 

Abriguei-me no amar-te,
Que é sempre, sempre comigo...


  

sábado, 13 de abril de 2013

NO VENTO...

Vai, minha alma,
no vento, sussurrando
versos d'água,
vai, e diz a todos,
irmãos e irmãs,
que o mundo-calabouço
já não dá o tom
à minha vida,
porque sei, então,
que por pouco
que possa meu braço,
ele sempre alcançará
o rosto cujo destino
é receber o seu afago,
e a semente a ser plantada,
e a terra, que se nunca diz
dos seus segredos de chão,
será sempre amiga
dum coração de camponês,
(ou quem sabe de leão),
mas coração de poeta,
e de afeições sinceras,
pequena coleção.



PARA QUÊ?

Para que serve o amor?
Para tornar todas as tarefas cotidianas
um fardo incomensurável,
e então estarmos nós no sofá,
a tentar domar o nó nas entranhas,
a fabricar alguma vontade,
ao menos ver qualquer bobagem
na TV?

Para que serve, isso que nos acossa,
e sem dó nos apedreja?
Para nos transformar
numa barafunda de não-prioridades,
a bocejar o dia inteiro,
e à noite, com olhos de coruja,
desenhamos, dedos no ar,
no breu do quarto a silhueta amada,
compondo mil afagos
para com nosso corpo,
sedento de uma nudez
que sabe Deus quando, e se, virá?

Não.
Se o que se disse é verdade,
o amor, no entanto, não serve para isso.
O amor serve, apenas,
para que nossos amigos,
quando toparem conosco,
leiam em nossos olhos
que ainda não chegou a hora
de alimentar a terra;
para que sintam nosso aperto de mão
ainda firme, incisivo talvez;
e para que todos, sejam o que forem,
nos respeitem como alguém
que certamente não anda sobre a água,
mas cuja alma sabe bem o que é
voar.





LÁ FORA, A GAROA

Lá fora, a garoa:
saio para caminhar,
sinto o fresco do ar no meu rosto,
e os finíssimos pingos d'água
que me acariciam, suaves,
o coração exposto.

Um mal-estar que não me deixa,
a vontade de gritar o nome dela,
de sair correndo sem rumo,
de perguntar a cada transeunte
se acaso não a viu
nalguma janela?
se não a ouviu dizer algo de mim?
se não é verdade
que ela também anseia
por esse calor que me varre
todo ânimo, todo gosto,
que me despoja de mim mesmo,
para logo me trazer de volta
atado a mil receios?

Mas é preciso não sofrer...
Eu sei disso.

Tenho, guardado comigo,
o toque dos dedos,
e a súbita fraqueza da voz,
numa frase assim, tão simplória,
mas que revelava tanto, tanto...
toda desejo, e medo.

Tenho muito,
e é maravilhoso...

Tenho muito,
e é maravilhoso.



quinta-feira, 11 de abril de 2013

PARA S.

Me dá tua mão
menina-moça, Mulher;
me dá teu sorriso
e teu olhar tristonho,
tão entregue,
que deles farei versos
de lua branca, como a tua pele,
de querer desesperado,
e de verde florescer,
em que me vejo, alegre...

Os dias seguem
e o ar vai faltando...
uma preguiça angustiada,
um alheamento
quando a casa é cheia,
e uma inquietude
quando é calma...

Meu pensamento te procura,
sempre, em tudo,
e chega a parecer um crime,
quando contigo não sonho...

Sim, um crime...

Me dá, então, tua mão,
para que juntos
penetremos o nevoeiro,
e convençamos os deuses do sono
de que somente
com teu corpo colado ao meu
podemos enfrentar
nosso humano abandono.
 

domingo, 7 de abril de 2013

BLACK NIGHT

Black night
Why do you never leave me?
Why are you always pacing my heart
And borrowing my sky?

Oh Black night
Could you listen to my thoughts
And forgive my foolish signs?

Black night
Your sorrow is all mine...

Black night
An ancient fear
Has turned into my only sight.

Oh Black night
Plunge into my eyes
And make my daily song a lie.