Fui num evento de Literatura Latina agora, no começo de Julho, e lá alguém, em certo momento, me veio com essa: "os grandes poetas têm temas; não escrevem sobre a própria vida, a não ser esporadicamente", ou algo de teor semelhante. Então fiquei matutando.
Ora, há, de fato, temas que, se têm a ver com a vida de todos os dias, o têm de modo abrangente ou transversal: são os arquétipos. A morte, o tempo, o amor, as vicissitudes da vida, a condição humana... enfim. Creio que normalmente o poeta - aquele que é realmente poeta - escreverá, sim, tendo em mente essas temáticas por assim dizer "maiores".
Mas não dá para ignorar que a vida de todos os dias é, como dito no começo do parágrafo anterior, permeada por elas, pela morte, pelo amor, etc., e se o poeta consegue escrever sobre a sua própria vida e ao mesmo tempo tocar esses temas sensivelmente, ele não está sendo um mau poeta. Ao contrário: ele está sendo o maior poeta que se pode ser - o que sabe alcançar o geral por meio do particular, consagrando este, e vivificando aquele.
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sexta-feira, 17 de julho de 2015
domingo, 17 de novembro de 2013
KUNDERA, MANN, E ETC.
É impressionante como não se ouve nem se lê muita crítica tratando do enorme romance A brincadeira, de Milan Kundera! É talvez o mais perfeito que eu já li na minha vida, e olhe que eu já li alguma coisa!
O romance de Kundera é profundamente filosófico, com visões de mundo e personagens contrastantes, contraditórios às vezes, com um senso do caráter contingente e extremamente problemático da condição humana, que espanta. Vai além, muito mais além, de A montanha mágica, de Thomas Mann, que tem um certo ar "forçado", pedante. Kundera consegue ser mais filosófico porque mais orgânico.
E, claro, há a tristeza que emana de A brincadeira, o sentimento irrefreável de ter sido derrotado pelo Tempo e seus fantoches, suas engrenagens.
É preciso ler A brincadeira.
E A montanha mágica também.
O romance de Kundera é profundamente filosófico, com visões de mundo e personagens contrastantes, contraditórios às vezes, com um senso do caráter contingente e extremamente problemático da condição humana, que espanta. Vai além, muito mais além, de A montanha mágica, de Thomas Mann, que tem um certo ar "forçado", pedante. Kundera consegue ser mais filosófico porque mais orgânico.
E, claro, há a tristeza que emana de A brincadeira, o sentimento irrefreável de ter sido derrotado pelo Tempo e seus fantoches, suas engrenagens.
É preciso ler A brincadeira.
E A montanha mágica também.
domingo, 28 de julho de 2013
CARLO EMILIO GADDA
Acabo de terminar a leitura de A Adalgisa - Quadros milaneses, de Carlo Emilio Gadda. São contos, no mínimo inusitados, vão e vêm no tempo, e no espaço, e nos eventos, com uma linguagem que no começo parece pedante demais, mas que depois, conforme notamos que o autor sustenta o estilo, se afigura original, forte, mais do que isso: pujante. E tudo isso para não falar na deliciosa ironia de Gadda, seus eufemismos sarcásticos, seus neologismos satíricos.
O livro, ao percebermos que há uma continuação entre os contos, que personagens se repetem, e eventos se encadeiam, poderia ser considerado um romance fragmentário, uma espécie de crônica de Milão, da Milão do início do século XX. E quanta acidez ao descrever essa cidade tão presente nos sonhos dos peregrinos...
Leitura fundamental.
O livro, ao percebermos que há uma continuação entre os contos, que personagens se repetem, e eventos se encadeiam, poderia ser considerado um romance fragmentário, uma espécie de crônica de Milão, da Milão do início do século XX. E quanta acidez ao descrever essa cidade tão presente nos sonhos dos peregrinos...
Leitura fundamental.
terça-feira, 23 de julho de 2013
O SOCIAL NA ARTE
Começo a trabalhar com mais afinco o social, na minha poesia. Por aqui, dizem os críticos que todo artista que se preze acaba se obrigando a fazê-lo ("se obrigando", claro, se isso já não é natural em sua linha de trabalho, no, por assim dizer, movimento de sua inspiração...).
E a preocupação com o social, pra dizer a verdade, se no início não era grande em meu dia-a-dia, atualmente vem crescendo consideravelmente.
O espanto: como assim não era grande?!
E a preocupação com o social, pra dizer a verdade, se no início não era grande em meu dia-a-dia, atualmente vem crescendo consideravelmente.
O espanto: como assim não era grande?!
sábado, 29 de junho de 2013
FUNÇÃO
Certos personagens, sobretudo nos contos breves e nas novelas, não requerem uma personalidade, mas sim apenas traços funcionais. Não é exatamente o velho conceito de "personagem plana", pois esta última pode ter elementos não funcionais, elementos estritamente composicionais, isto é, traços de personalidade independentes do enredo. Os traços funcionais a que me refiro são desenvolvimentos do enredo, estão acoplados nele totalmente. Em suma: a personagem é uma função.
Não saberia apontar exemplos na literatura universal, mas na minha própria esse tipo de personagem tem aparecido constantemente. Será que o inventei?
Claro que não.
Não saberia apontar exemplos na literatura universal, mas na minha própria esse tipo de personagem tem aparecido constantemente. Será que o inventei?
Claro que não.
domingo, 9 de junho de 2013
STEREO FRANZ
Uma peça, ou, mais geralmente, uma obra de arte, para ser de fato significativa deve: a) tocar num ponto importante da vida humana; b) não se resolver por inteiro num esquema; e c) os elementos que a impedem de se resolver por inteiro devem passar ao espectador/leitor a sensação de que estão ali porque têm de estar, isto é, a obra deve ter organicidade.
Stereo Franz, peça de teatro de 2012, e que, ao que tudo indica, vai abrir temporada brevemente em São Paulo, cumpre com esses três critérios belissimamente. Acabo de assistir a ela ("ensaio" aberto, para alguns convidados, e eu de penetra), e estou de queixo caído. Só posso dizer: do caralho.
Assista, quem puder.
Stereo Franz, peça de teatro de 2012, e que, ao que tudo indica, vai abrir temporada brevemente em São Paulo, cumpre com esses três critérios belissimamente. Acabo de assistir a ela ("ensaio" aberto, para alguns convidados, e eu de penetra), e estou de queixo caído. Só posso dizer: do caralho.
Assista, quem puder.
domingo, 2 de junho de 2013
POEMAS, DE BERTOLT BRECHT
Acabo de ler a coletânea dos poemas de Brecht, da editora 34.
Estou, simplesmente, maravilhado. Quanto despojamento, e ainda assim eficácia poética!
Brecht queria falar para a gente simples. Seus poemas são limpos, claríssimos. E acompanham a sua história (o que, a meu ver, é grande mérito).
Leia, quem puder. O livro se chama Poemas 1913-1956.
Estou, simplesmente, maravilhado. Quanto despojamento, e ainda assim eficácia poética!
Brecht queria falar para a gente simples. Seus poemas são limpos, claríssimos. E acompanham a sua história (o que, a meu ver, é grande mérito).
Leia, quem puder. O livro se chama Poemas 1913-1956.
quinta-feira, 21 de março de 2013
UM ESCLARECIMENTO
Escrevi aqui, recentemente, que se o escritor não tem algo a ensinar, então ele não deve escrever. Gostaria de colocar minha opinião em termos mais claros.
Pois bem. Quis dizer com isso, apenas, que o escritor, ou aspirante a escritor, deve ter certeza de que a ideia que tem na cachola, uma vez posta num livro, deve fazer alguma diferença na vida de quem o ler. Não deve ser algo inócuo. E se fizer alguma diferença, se não for inócuo, então o leitor crescerá, necessariamente (embora não se possa, na maioria dos casos, apontar a direção na qual o crescimento se dará). Ele, no mínimo, deixará o lugar que ocupava antes da leitura, entendendo por lugar uma abstração, algo como um posicionamento no âmbito da existência.
Promover um reposicionamento, ainda que só aspectual (o mais comum), é próprio dos bons livros.
Creio que agora consegui dizer.
Pois bem. Quis dizer com isso, apenas, que o escritor, ou aspirante a escritor, deve ter certeza de que a ideia que tem na cachola, uma vez posta num livro, deve fazer alguma diferença na vida de quem o ler. Não deve ser algo inócuo. E se fizer alguma diferença, se não for inócuo, então o leitor crescerá, necessariamente (embora não se possa, na maioria dos casos, apontar a direção na qual o crescimento se dará). Ele, no mínimo, deixará o lugar que ocupava antes da leitura, entendendo por lugar uma abstração, algo como um posicionamento no âmbito da existência.
Promover um reposicionamento, ainda que só aspectual (o mais comum), é próprio dos bons livros.
Creio que agora consegui dizer.
quinta-feira, 14 de março de 2013
A ARTE, E OS PARADIGMAS
A Cia. das Letras, recentemente, promoveu um concurso de haikais em seu blog. Já foram divulgados os ganhadores, cinco. Todos poemas que denotam fina sensibilidade, e gosto.
Pois bem. Só que muitos comentaram que os cinco não se enquadravam no conceito de haikai, porque não respeitavam a métrica (5-7-5 sílabas poéticas), ou porque fugiam ao tema, ou porque não tinham KIGO, ou por algum outro motivo. Não sei o que é KIGO. Vou pesquisar. Mas o que interessa, aqui, é a postura estreita, radical, de algumas pessoas quanto a essa forma literária. Digo "estreita" não me referindo ao fato de essas pessoas tentarem ser ortodoxas, mas ao fato de elas só conceberem como haikai aquele poema que se encaixa com perfeição ao modelo. Tudo bem o seu purismo, se for uma particularidade sua, mas se for concebido como lei, aí... trata-se de amarrar o poeta, e o poeta não tolera amarras.
A modernidade é caracterizada, em arte, pela quebra recorrente de paradigmas. Vale, ao menos para nós, ocidentais, a ideia, a realização, a beleza intrínseca, em detrimento da fidelidade a um padrão, algo simplesmente fora do âmbito há, pelo menos, mais de um século.
Eu escrevo haikais. Mas os meus, não são haikais. São poemas de três versos e no máximo dezessete sílabas. Sei lá que nome dar a eles...
Pois bem. Só que muitos comentaram que os cinco não se enquadravam no conceito de haikai, porque não respeitavam a métrica (5-7-5 sílabas poéticas), ou porque fugiam ao tema, ou porque não tinham KIGO, ou por algum outro motivo. Não sei o que é KIGO. Vou pesquisar. Mas o que interessa, aqui, é a postura estreita, radical, de algumas pessoas quanto a essa forma literária. Digo "estreita" não me referindo ao fato de essas pessoas tentarem ser ortodoxas, mas ao fato de elas só conceberem como haikai aquele poema que se encaixa com perfeição ao modelo. Tudo bem o seu purismo, se for uma particularidade sua, mas se for concebido como lei, aí... trata-se de amarrar o poeta, e o poeta não tolera amarras.
A modernidade é caracterizada, em arte, pela quebra recorrente de paradigmas. Vale, ao menos para nós, ocidentais, a ideia, a realização, a beleza intrínseca, em detrimento da fidelidade a um padrão, algo simplesmente fora do âmbito há, pelo menos, mais de um século.
Eu escrevo haikais. Mas os meus, não são haikais. São poemas de três versos e no máximo dezessete sílabas. Sei lá que nome dar a eles...
sábado, 23 de fevereiro de 2013
ENGAJAMENTO LITERÁRIO, PARTE III
Para finalizar, gostaria de tratar muito brevemente do utile de Horácio, sob um ângulo contemporâneo. Basicamente, ele se mostra, a nós leitores do Séc. XXI, como a necessidade de a obra literária conter uma mensagem, algo que nos enriqueça, que nos faça crescer, ou mais ingênua e "marketeiramente": que nos amenize as durezas da vida.
Dizia Sidney Sheldon que seu objetivo, ao escrever um romance, era proporcionar ao leitor alguns momentos de prazer descompromissado, uma espécie de pequena ilha, onde se refugiar do mundo por certo tempo. Em suma, escapismo. Não é disso que falarei aqui. Não creio que o escapismo nos enriqueça ou nos estimule algum crescimento. Talvez amenize um tantinho, mas... parece-me óbvio que não é o caso de tratar dele neste post.
Falarei, antes, daquela literatura cujo produtor - o escritor - mostra compromisso com uma melhora, ou evolução, de seu público.
Pois bem. Primeiro ponto a assinalar: é uma atitude vertical, assumir tal compromisso. O autor se coloca como alguém que tem o que ensinar, ou seja, acima de seu leitor. Dirão, assim, que ele é arrogante, ou soberbo.
Ora, eu sustento com veemência que se você não tem algo a ensinar, seja diretamente, seja de modo enviesado (o mais comum, hoje, ainda que seus adeptos não tenham consciência dele, e se autodeclarem negativistas), você simplesmente não tem o que escrever, e não deve escrever. Todo autor, se é original, está acima de seu público. Ponto.
Segundo: os valores são relativos, e essa atitude, que não tem como não ser moralista, é parte de uma visão unilateral e simplista da vida.
Muito bem. Depende. Uma literatura moralista em nível ingênuo certamente é algo condenável, mas em nível profundo e consciente, não passa nem perto disso. Quem pode negar que Anna Kariênina é um romance moralista? E A queda, de Camus? E toda a obra machadiana, com sua crítica sutil, mas feroz, da sociedade corrompida da época? E Eça? E Flaubert? O olhar agudo para as mazelas, a denúncia, tem como implicação o desejo de mudança, e não há grande autor que não tenha enxergado microscopicamente a sujeira de seu entorno. Quem se cala, em nome de uma atitude de artiste, de uma originalidade que só pode ser mesquinha, e se põe a vegetar esteticismos, esse alguém está tão somente fugindo do problema. Ponto.
Por fim, terceiro: o autor, ao se comprometer com algo que não depende apenas dele, está, sartreanamente, objetificando o leitor. Está colocando-o como um receptáculo, como um ser passivo. Ler é construir, e não há como estimar o resultado disso, uma vez começado.
Ora, tanto é possível estimar, que a comunicação se dá, e se as interpretações diferem, também têm um núcleo comum, inevitável. O fato de se poder ler uma obra e construir um sentido para essa leitura que vá contra o almejado pelo escritor não impossibilita a produção engajada, mas sim torna a arena, o debate crítico, uma realidade incontornável. Talvez seja essa a maior intenção do autor.
Continuando, tentar passar algum valor para alguém não é objetificá-lo, não é torná-lo passivo, já que o que se busca é a intelecção do valor. Uma vez conhecido, o leitor está ainda na esfera de sua liberdade, para adaptar o que leu à realidade que vivencia.
Enfim, assunto para muita discussão. Não estou, realmente não estou, satisfeito com meus três posts, mas tenho de encerrar a série, simplesmente porque preciso refletir melhor. Espero ter transmitido algo.
Auf wiedersehen!
Dizia Sidney Sheldon que seu objetivo, ao escrever um romance, era proporcionar ao leitor alguns momentos de prazer descompromissado, uma espécie de pequena ilha, onde se refugiar do mundo por certo tempo. Em suma, escapismo. Não é disso que falarei aqui. Não creio que o escapismo nos enriqueça ou nos estimule algum crescimento. Talvez amenize um tantinho, mas... parece-me óbvio que não é o caso de tratar dele neste post.
Falarei, antes, daquela literatura cujo produtor - o escritor - mostra compromisso com uma melhora, ou evolução, de seu público.
Pois bem. Primeiro ponto a assinalar: é uma atitude vertical, assumir tal compromisso. O autor se coloca como alguém que tem o que ensinar, ou seja, acima de seu leitor. Dirão, assim, que ele é arrogante, ou soberbo.
Ora, eu sustento com veemência que se você não tem algo a ensinar, seja diretamente, seja de modo enviesado (o mais comum, hoje, ainda que seus adeptos não tenham consciência dele, e se autodeclarem negativistas), você simplesmente não tem o que escrever, e não deve escrever. Todo autor, se é original, está acima de seu público. Ponto.
Segundo: os valores são relativos, e essa atitude, que não tem como não ser moralista, é parte de uma visão unilateral e simplista da vida.
Muito bem. Depende. Uma literatura moralista em nível ingênuo certamente é algo condenável, mas em nível profundo e consciente, não passa nem perto disso. Quem pode negar que Anna Kariênina é um romance moralista? E A queda, de Camus? E toda a obra machadiana, com sua crítica sutil, mas feroz, da sociedade corrompida da época? E Eça? E Flaubert? O olhar agudo para as mazelas, a denúncia, tem como implicação o desejo de mudança, e não há grande autor que não tenha enxergado microscopicamente a sujeira de seu entorno. Quem se cala, em nome de uma atitude de artiste, de uma originalidade que só pode ser mesquinha, e se põe a vegetar esteticismos, esse alguém está tão somente fugindo do problema. Ponto.
Por fim, terceiro: o autor, ao se comprometer com algo que não depende apenas dele, está, sartreanamente, objetificando o leitor. Está colocando-o como um receptáculo, como um ser passivo. Ler é construir, e não há como estimar o resultado disso, uma vez começado.
Ora, tanto é possível estimar, que a comunicação se dá, e se as interpretações diferem, também têm um núcleo comum, inevitável. O fato de se poder ler uma obra e construir um sentido para essa leitura que vá contra o almejado pelo escritor não impossibilita a produção engajada, mas sim torna a arena, o debate crítico, uma realidade incontornável. Talvez seja essa a maior intenção do autor.
Continuando, tentar passar algum valor para alguém não é objetificá-lo, não é torná-lo passivo, já que o que se busca é a intelecção do valor. Uma vez conhecido, o leitor está ainda na esfera de sua liberdade, para adaptar o que leu à realidade que vivencia.
Enfim, assunto para muita discussão. Não estou, realmente não estou, satisfeito com meus três posts, mas tenho de encerrar a série, simplesmente porque preciso refletir melhor. Espero ter transmitido algo.
Auf wiedersehen!
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
ENGAJAMENTO LITERÁRIO, PARTE II
Mas, como
disse no post anterior: a noção de engajamento ainda é entendida pela maioria
como engajamento político de
esquerda.
Me lembro
que, quando comecei a faculdade de Letras, em 1998, assimilei muito rápida e
levianamente a ideia da "função" da obra literária: o "despertar
a consciência" do leitor para a realidade de luta de classes, e a
necessidade, então, de trabalhar pela sua superação. Para mim, não havia nada
que prestasse fora desse quadro.
Ora, é
forçoso notar que a maioria das obras literárias está, de fato, fora desse quadro. É, ainda,
forçoso notar que certos críticos tentam trazer, a golpes de marreta, obras de
sua predileção para esse quadro, a despeito da visível deformação que têm de
impor a elas. Para dar exemplos, poderia citar Dom Quixote, Os sofrimentos do jovem Werther,
ou mesmo, um tanto polemicamente, A
montanha mágica e Madame
Bovary, este último, como
membro, protótipo perfeito, da escola realista, mas um caso de grande
complexidade que extrapola qualquer visão ideológica que se lhe tente impor.
Há, mesmo, autores essenciais cuja obra inteira muito dificilmente suportaria o
enquadramento marxista: falo, principalmente, de Albert Camus. Mas poderia
citar também Clarice Lispector.
O grande
problema desse caso é que os críticos marxistas não concebem absolutamente
nenhuma verdade fora do modelo de que se servem. É o que está na grade, e ponto
final. Cito, para ilustração, o caso bem óbvio de Roberto Schwarz e sua análise
do episódio "A flor da moita", acerca da personagem Eugênia, das Memórias póstumas de Brás Cubas. A moça, como se sabe, é coxa, e
Brás Cubas a trata do modo pequeno, mesquinho e vil digno de sua personalidade.
Pois bem. R. Schwarz coloca em primeiro plano o fato de ela ser pobre, e, indo além, sobrepõe a pobreza ao defeito
físico, praticamente anulando este último. Como Brás Cubas chega a ficar
noivo, mais adiante no livro, de uma moça pobre porém sem qualquer problema
físico, creio que fica claro a forçada de mão de R. Schwarz.
Isto
posto, a grade marxista proporciona sim interpretações interessantes do romance
de Machado de Assis. Mas há muito fora do foco dela.
Se nossos
intelectuais, nossos homens grandes, R. Schwarz entre eles (sem qualquer
ironia), admitissem que seu método não é universal, o ganho, para todos,
leitores e escritores, seria enorme.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
ENGAJAMENTO LITERÁRIO, PARTE I
Começo a série de posts sobre o engajamento literário, série que tenho a intenção de honrar aqui no blog, discutindo a proposta de David Grossman, que ele formulou no Roda Viva, algum tempo atrás, mais ou menos da seguinte maneira: "escrevo não para fazer a pessoa se sentir bem, mas sim para destruí-la, porque dessa destruição surgirá algo de positivo, na necessidade que a pessoa terá de promover uma reconstrução".
Se poderia dizer que se trata de engajamento, da parte dele? Ou de irresponsabilidade? Vejamos.
A noção de engajamento tem um "ranço" político fortíssimo. Até hoje "literatura engajada" é fundamentalmente aquela que se coloca como promotora da Revolução Socialista (ou Anarquista, Comunista, enfim... as de esquerda), com mui variados graus de mediação. É então, forçosamente, uma forma de colocar-se a serviço do Bem-geral, de uma felicidade extensiva a quase todos, radicada no fim das opressões econômicas e seus correlatos (coloco aqui o projeto, que ainda existe, e não as suas realizações concretas, todas muito criticáveis). Ou seja, trata-se de literatura submetida, integrada numa proposta (numa esfera) mais ampla, que a contém e que dá a ela o seu principal sentido de ser. Impossível não lembrar do dulce et utile de Horácio, assim como é impossível não lembrar de toda a literatura de auto-ajuda. Há algo em comum entre o engajamento e as duas.
Ora, Grossman coloca-se essencialmente como alguém que constata a necessidade de um pensar diferente, da renovação como um valor-em-si. Ele não assume a verticalidade do engajamento tradicional (o posicionar-se "acima"); ao contrário, dá o martelo na mão do leitor, para que ele, o leitor, faça da ferramenta o uso que julgar adequado (a foice é usada para dilacerar o dono da mão que usará o martelo...). Se o leitor entrará para algum movimento político, ou se buscará a auto-ajuda, ou se mergulhará em tristezas e impotência, ou, enfim, se cometerá suicídio, não está de forma alguma garantido, e nem se pode dizer que seja almejado. O escritor assume o risco, que é radical, de uma tentativa de viabilização de um momento de liberdade plena, apoiado na ideia de reconstrução. Bem sabemos que isso é perigoso ao extremo...
É, todavia, uma maneira de ser útil, e assim se explica a referência a Horácio, e é também uma maneira de estimular a auto-ajuda (em sentido lato), embora de maneira não vertical, e de modo algum marcada por falsa sabedoria.
Se poderia dizer que se trata de engajamento, da parte dele? Ou de irresponsabilidade? Vejamos.
A noção de engajamento tem um "ranço" político fortíssimo. Até hoje "literatura engajada" é fundamentalmente aquela que se coloca como promotora da Revolução Socialista (ou Anarquista, Comunista, enfim... as de esquerda), com mui variados graus de mediação. É então, forçosamente, uma forma de colocar-se a serviço do Bem-geral, de uma felicidade extensiva a quase todos, radicada no fim das opressões econômicas e seus correlatos (coloco aqui o projeto, que ainda existe, e não as suas realizações concretas, todas muito criticáveis). Ou seja, trata-se de literatura submetida, integrada numa proposta (numa esfera) mais ampla, que a contém e que dá a ela o seu principal sentido de ser. Impossível não lembrar do dulce et utile de Horácio, assim como é impossível não lembrar de toda a literatura de auto-ajuda. Há algo em comum entre o engajamento e as duas.
Ora, Grossman coloca-se essencialmente como alguém que constata a necessidade de um pensar diferente, da renovação como um valor-em-si. Ele não assume a verticalidade do engajamento tradicional (o posicionar-se "acima"); ao contrário, dá o martelo na mão do leitor, para que ele, o leitor, faça da ferramenta o uso que julgar adequado (a foice é usada para dilacerar o dono da mão que usará o martelo...). Se o leitor entrará para algum movimento político, ou se buscará a auto-ajuda, ou se mergulhará em tristezas e impotência, ou, enfim, se cometerá suicídio, não está de forma alguma garantido, e nem se pode dizer que seja almejado. O escritor assume o risco, que é radical, de uma tentativa de viabilização de um momento de liberdade plena, apoiado na ideia de reconstrução. Bem sabemos que isso é perigoso ao extremo...
É, todavia, uma maneira de ser útil, e assim se explica a referência a Horácio, e é também uma maneira de estimular a auto-ajuda (em sentido lato), embora de maneira não vertical, e de modo algum marcada por falsa sabedoria.
domingo, 20 de janeiro de 2013
ANNA KARIÊNINA
Tolstói era, de fato, um enorme, um extraordinário psicólogo. Seu livro é um exame minucioso da alma de figuras condenadas socialmente, sobretudo a personagem que dá título ao livro. Ao lê-lo, fui me sentindo pequeno como escritor. Serei eu capaz, nalgum futuro, de produzir um estudo tão verdadeiro e profundo quanto Anna Kariênina?...
Minha resposta, no momento, é não, e isso não é mau. Não se deve imitar ninguém, ao criar. E minha alma é realmente em muito oposta à de Tolstói. Ele é um analista, e eu sou sintetizante. Isso, esse pensamento, muito me alivia, porque saio da leitura de Anna me sentindo como um barquinho de papel arrastado pela correnteza que a chuva produz à beira de uma calçada, chuva e correnteza que são, a um só tempo, Liev Tolstói.
Até as "revoltas" modernistas, ninguém escreveu como Tolstói, ninguém foi tão longe, tão exato, ninguém problematizou nem representou tão bem quanto ele.
É, sem dúvida, o grande mestre do Séc. XIX. Esse devia ser seu sobrenome.
Minha resposta, no momento, é não, e isso não é mau. Não se deve imitar ninguém, ao criar. E minha alma é realmente em muito oposta à de Tolstói. Ele é um analista, e eu sou sintetizante. Isso, esse pensamento, muito me alivia, porque saio da leitura de Anna me sentindo como um barquinho de papel arrastado pela correnteza que a chuva produz à beira de uma calçada, chuva e correnteza que são, a um só tempo, Liev Tolstói.
Até as "revoltas" modernistas, ninguém escreveu como Tolstói, ninguém foi tão longe, tão exato, ninguém problematizou nem representou tão bem quanto ele.
É, sem dúvida, o grande mestre do Séc. XIX. Esse devia ser seu sobrenome.
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
FAUSTO, DE GOETHE
Uma das mais belas cenas da literatura ocidental:
Fausto, centenário e cego, ouve o barulho de pás, e de escavações, e crê que se realiza uma grande obra de drenagem de um terreno (ele está sempre aspirando às grandes coisas), obra que ele já planejara e ordenara antes da cegueira, mas... o que se faz é cavar a cova dele, ordem dada por Mefistófeles. Os "operários" são lêmures, servos do "baixíssimo".
Que poder de símbolo tem essa passagem!... Seria o quê? O homem que, dia após dia, tropeço após tropeço, anela grandes feitos, mas, trágica e ironicamente, só faz se preparar para a tumba?... Bem, essa é a minha leitura, assim, fresquinha, logo após fechar o livro. Trata-se, no entanto, de uma obra cuja fortuna crítica, como bem aponta o responsável pela edição que li, o prof. Marcus Vinícius Mazzari, já ultrapassa os dez mil títulos. Se alguém se dedicar, a vida toda, a só ler sobre o Fausto, ainda assim não conseguirá ler tudo o que já foi publicado... Ou seja: possibilidades interpretativas infinitas.
Só resta dizer: amigos, houve alguns gênios literários em nossa história, mas só houve um Johann Wolfgang von Goethe.
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Um amor, de Dino Buzzati
Um romance sobre o amor, tão perspicaz, tão profundo, tão lírico e ao mesmo tempo tão realista.
Sem estereótipos, sem idealizações, cético e... romântico.
O melhor livro que li, esse ano.
Sem estereótipos, sem idealizações, cético e... romântico.
O melhor livro que li, esse ano.
domingo, 29 de julho de 2012
LUIZ ALBERTO MENDES
As Memórias de um sobrevivente são, para minha surpresa, um livro extraordinário. Ao final, e a despeito de um ou outro defeito, me vi tocado pela profunda verdade humana que o protagonista vivencia, verdade que começa no ódio, e acaba na descoberta da amizade sincera, e da força humanizadora da palavra escrita. Saio dele mais rico, mais compreensivo, mais escolado do que quando o comecei.
Recomendo.
Recomendo.
segunda-feira, 18 de junho de 2012
CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA
Livro para ser, sobretudo, "matutado". Acabei de ler, e não sei bem o que dizer, mas como se não disser nada essas minhas fracas primeiras impressões se perderão, e com novas e novas leituras (de outros livros) acabarão por restar apenas restos de simplicidades, imagens fragmentárias do que li, então - então aqui vai o que calou em mim:
A condução do enredo, com uma reviravolta no final, amalgama a "grande literatura" (por falta de melhor termo) com a literatura de mercado, nada demais, algo que Dostoievski fez em Crime e Castigo (muito ostensivamente), e em Os irmãos Karamázov (mais brilhantemente).
A fraqueza inerente ao humano é, me parece, o motivo mestre do livro, sem perda do caráter contraditório de qualquer um de nós. São personagens fracas justamente porque fortes, e fortes porque fracas. Duas faces indissociáveis de seres ficcionais tão intensamente vivos como estes.
Não fossem alguns deslizes de linguagem, notados esparsamente, seria o caso de chamar a Crônica de Lúcio Cardoso de obra-prima.
Quase a chamo.
A condução do enredo, com uma reviravolta no final, amalgama a "grande literatura" (por falta de melhor termo) com a literatura de mercado, nada demais, algo que Dostoievski fez em Crime e Castigo (muito ostensivamente), e em Os irmãos Karamázov (mais brilhantemente).
A fraqueza inerente ao humano é, me parece, o motivo mestre do livro, sem perda do caráter contraditório de qualquer um de nós. São personagens fracas justamente porque fortes, e fortes porque fracas. Duas faces indissociáveis de seres ficcionais tão intensamente vivos como estes.
Não fossem alguns deslizes de linguagem, notados esparsamente, seria o caso de chamar a Crônica de Lúcio Cardoso de obra-prima.
Quase a chamo.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
A RECHERCHE
Acabo de ler os sete volumes da Recherche. Um livro irrepetível (até porque repeti-lo não seria boa prática literária). Vale pra ele o que Pound disse do Shandy (conferir o ABC da literatura).
Sinto ter lido uma tradução. Preciso realmente aperfeiçoar o meu Francês, pra ler no original.
Confesso que passei por momentos de cansaço, durante essa empresa, mas... uma vez terminada, fica a sensação fortíssima de realidade, de concretude, de vida. Proust salvou-se do esquecimento, afinal.
Fica a dúvida cruel: alguém como Proust, com sua Recherche, só pode ser fruto de anos de ócio, e portanto de uma sociedade inigualitária. Compensa?
Sinto ter lido uma tradução. Preciso realmente aperfeiçoar o meu Francês, pra ler no original.
Confesso que passei por momentos de cansaço, durante essa empresa, mas... uma vez terminada, fica a sensação fortíssima de realidade, de concretude, de vida. Proust salvou-se do esquecimento, afinal.
Fica a dúvida cruel: alguém como Proust, com sua Recherche, só pode ser fruto de anos de ócio, e portanto de uma sociedade inigualitária. Compensa?
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
NO CAMINHO DE SWANN
Eu já tinha começado três vezes esse livro, o primeiro da Recherche, e por motivos diversos não terminara. Sempre aparecia alguma coisa que me fazia largá-lo. Entre essas coisas, a ponderação que tem muito de engano: "eu não tenho os outros volumes, de que adianta ler o primeiro?". Ora, acabo de terminá-lo, e se, por um lado, já comprei os outros, todos, por outro vejo que a leitura só do primeiro tem muito de proveitosa. Há uma coerência interna. Há começo, meio, e fim (que a Modernidade já descobriu não serem absolutamente necessários...). Tendo dito isso, acrescento que dedicarei parte dos próximos meses à leitura de toda a Recherche (hoje mesmo já comecei À sombra das raparigas em flor). Só posso dizer: que delícia!
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
A IMORTALIDADE, DO GENIAL MILAN KUNDERA
Terminei hoje, agora há pouco.
Um raciocínio simples: há, aproximadamente, 7 bilhões de pessoas na terra. Mas há um número bem mais reduzido de gestos possíveis de ser executados por essas pessoas. Logo elas se repetem. Tudo muito lógico. Mas... Kundera dá um salto, a partir daí: para seu narrador, são os gestos que se servem das pessoas, e não o contrário. De um gesto visto num clube nasce a heroína do romance, mas esse gesto, por assim dizer criador, não contém a chave do livro. A chave do livro é o gesto de escrever, de criar literatura. O romancista não se serve dele, é ele quem se serve do romancista. E o faz em nome de quê? Numa palavra: da imortalidade. A escrita, impulsionada pelo desejo de perpetuação que nosso self não pode tolher em si mesmo, serve-se dos escritores, para que assim a humanidade possa se ver num espelho que durará tanto quanto durar a linguagem.
Outro ponto: para alcançar a imortalidade, é preciso criar uma personagem de si-mesmo. Só as personagens duram; as pessoas passam, inexoravelmente.
Haveria ainda inúmeros pontos a assinalar acerca de A imortalidade, mas o caso é que ainda o estou digerindo.
Em todo caso, leia. Só se tem a ganhar.
Um raciocínio simples: há, aproximadamente, 7 bilhões de pessoas na terra. Mas há um número bem mais reduzido de gestos possíveis de ser executados por essas pessoas. Logo elas se repetem. Tudo muito lógico. Mas... Kundera dá um salto, a partir daí: para seu narrador, são os gestos que se servem das pessoas, e não o contrário. De um gesto visto num clube nasce a heroína do romance, mas esse gesto, por assim dizer criador, não contém a chave do livro. A chave do livro é o gesto de escrever, de criar literatura. O romancista não se serve dele, é ele quem se serve do romancista. E o faz em nome de quê? Numa palavra: da imortalidade. A escrita, impulsionada pelo desejo de perpetuação que nosso self não pode tolher em si mesmo, serve-se dos escritores, para que assim a humanidade possa se ver num espelho que durará tanto quanto durar a linguagem.
Outro ponto: para alcançar a imortalidade, é preciso criar uma personagem de si-mesmo. Só as personagens duram; as pessoas passam, inexoravelmente.
Haveria ainda inúmeros pontos a assinalar acerca de A imortalidade, mas o caso é que ainda o estou digerindo.
Em todo caso, leia. Só se tem a ganhar.
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