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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Conto breve: O escorpião

ele pode estar nos armários, nas gavetas, debaixo do fogão, dentro das meias, dos sapatos... nem sempre me lembro de olhar, distraído com as minúcias do quotidiano, mas quando começo uma calmaria, uma não-preocupação, um não pensar em nada, não consigo sustentá-lo, ele me vem à mente, e com ele o medo, medo não: pavor, pânico, o pequenino ser, quase um autômato, quase desprovido de cérebro, surge em sua qualidade de déspota implacável, dono de minha vontade, eu, que sou infinitamente mais capaz e complexo do que ele... ele surge, em imagens detalhadas, em situações dessas de qualquer thriller, ficções que minha mente tece, para dar corpo, para pintar a dependência que me liga ao insignificante animal, dependência de sua não-aparição, de sua completa ausência, oxalá inexistência, se isso fosse possível... sempre preciso me concentrar, e esperar por um longo tempo sem a visão dele... quanto maior o tempo, mais fraca vai ficando a dependência... mas...

Brinde de ano bom!

Houve um tempo em que se falava "ano bom", e não "ano novo". Não sou dessa época, mas me vi esses dias tomado daquela nostalgia renatorussoana, "saudades do que eu nunca vi"... e então me deu vontade de brindar "ano bom", e não "ano novo"... pois é... há uma carga de otimismo nessa troca: ora, o novo pode ser bom ou mau, ao passo que o bom é bom, certo?... mas há algo mais nisso: meu passado é tão pesado, tão cheio de dores e também de remorsos, que não resisto a apontar o olhar para 2011 desejando profundamente que tout va bien (que é o nome de um livro, de ensino de Francês, e uma frasesinha que me trouxe uma sensação de paz a primeira vez que ouvi...), mas não simplesmente algo convencional, expressão cristalizada que não diz o que diz, mas apenas marca uma situação; não: meu desejo de que tout va bien nasce na sola dos pés, do contato com o chão que me sustenta, e percorre todo o meu corpo, todas as minhas artérias e veias, toda carne, todo músculo, e ossos e sangue, até ganhar minha voz e se estender a todo e qualquer ser que tenha vindo a esse mundo trazendo na bagagem mais coisas boas do que ruins para ofertar, e não apenas a gula de abastecer o próprio umbigo. A você, amigo(a): que tout va bien em 2011!...

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Correspondências I

Concerto para piano nr. 2, em Dó menor, de Sergej Rachmaninoff:

1º movimento: O destino anuncia a chegada da tragédia;
2º movimento: O homem apascentando a solidão;
3º movimento: O homem, desesperado, dança sozinho em sua sala, tentando afirmar a alegria.

Arpeggione sonata, em Lá menor, de Schubert:

1º movimento: brincadeira solitária, a afastar a loucura;
2º movimento: meditação;
3º movimento: mergulhando no mundo do sono.

Sonata moonlight, em Dó sustenido menor, de L. Beethoven:

1º movimento: caminhada noturna, pensamentos vários e tristes;
2º movimento: a boa notícia;
3º movimento: fúria, devida ao naufrágio de uma ilusão.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Um dos fragmentos mais belos que li recentemente...

Do livro Desvario, de David Grossman (traduzido do Hebraico por George Schlesinger):

"Ela vai ao encontro dele, dispara ao encontro dele, olhos fixos no caminho, boca tensionada. Daí a pouco essa boca será beijada e há de relaxar, engolir, arder, os lábios deslizarão sobre aqueles outros lábios, de início apenas superficialmente, tocando sem tocar, então virá uma língua e desenhará seu contorno dando voltas e mais voltas, e os lábios tentarão não sorrir, e logo se ouvirá um murmúrio de prazer, não se mexa enquanto eu desenho, e de dentro dela sairá um grunhido de concordância, e aí os lábios dele se fixarão nos dela e, com toda a sua agressividade ríspida, masculina, vão sugá-los; depois se afastarão por um instante, deixando passar um suspiro quente. Por fim, os lábios vão se encontrar de novo, agora com a solenidade de um desejo realmente intenso, as línguas se entrelaçando como se fossem criaturas com vida própria, e os olhos dela se abrirão por um breve momento com um suspiro suave, os globos oculares se revirando um pouco para em seguida sumir. Sob as pálpebras semicerradas se revela uma brancura vazia, assustadora."

WHITMANIANA

You, life sailor, that has been kissed by the angel of loneliness: I'm with you!
You, mother or father, that has buried your toddler: I'm with you!
You, betrayed husband or wife: I'm with you!
You, abandoned child, that cries louder and louder, with no effect: I'm with you!

I'm with you all, and by god,
I have a simple, yet meaningful, question: who's with me?...

Conselhos de astrólogo profissional, por signo, para 2011...

CAPRICÓRNIO:

Evite mexer na agenda ou no celular de seu parceiro(a);

AQUÁRIO:

Não bata no vidro; isso pode deixar as pessoas à sua volta estressadas.

PEIXES:

Procure conhecer a dona (ou o dono) do anzol, antes de morder a minhoca;

ÁRIES:

Faça uma visita à Argentina, e volte muito tranquilo...

TOURO:

Atenção: só deus sabe o que há por trás do pano vermelho!

GÊMEOS:

Leia O homem duplicado, de José Saramago;

CÂNCER:

Evite contato com quaisquer vice-presidentes: você pode sair desacreditado(a), achando-se incompetente...

LEÃO:

Leia algo sobre os Romanov...

VIRGEM:

Não se apresse, mas não adie sempre;

LIBRA:

Não seja presunçoso(a): um dia o câmbio muda;

ESCORPIÃO:

É impressão sua se você acha que todos te odeiam...

SAGITÁRIO:

Seja precavido: você não é o único a ter flechas...

PARA TODOS OS SIGNOS:

Trabalhe, estude, corra atrás, que é muito melhor, dá muito mais resultados do que ficar se guiando por picaretas plantonistas de jornal...

Grande abraço, e um 2011 formatado de acordo com o seu sonho!

domingo, 26 de dezembro de 2010

O segredo de seus olhos

Taí um filme surpreendente. Quando a gente pensa que já viu de tudo em cinema, aparece uma produção e nos põe de boca aberta, a pensar... a pensar... Assim é o argentino O segredo de seus olhos. E é tão simples: um crime é cometido; descobre-se o culpado, ele é devidamente punido, mas... Em uma palavra: brutalidade. Essa que habita cada um de nós, é uma das palavras-chave de O segredo de seus olhos, e não falo da brutalidade do criminoso, mas sim da do... mocinho?... Não... aí é que está: o filme joga com as noções de "lado do bem" e "lado do mal", apresentando um mocinho para lá de suspeito (mas no entanto preservando personagens praticamente acima de qualquer suspeita, o que poderia ser um defeito, mas penso que não é assim). Como eu dizia: o culpado é punido, mas é só a partir daí que a originalidade de O segredo de seus olhos se impõe. A direção nos faz desconfiar de outros personagens, e ao instaurar um foco narrativo cambiante, instaura a dúvida, inexoravelmente. Não estou certo de que o filme se resolva...
Enfim: assista, se puder.
Outro ponto: de brinde há o senso de humor argentino, que é excelente. Há falas de matar de rir...
Outro ponto ainda: Ricardo Darín está soberbo. Merecia um oscar de melhor ator.

Heródoto

Sou da opinião de que é preciso ler Heródoto. Na verdade, eu já tinha essa opinião antes de lê-lo, sem saber bem por quê, meio que entrevendo razões colhidas de segunda mão. Mas agora que já o li (a sua História, edição da Ediouro), inteirinho, sei bem porque se deve lê-lo (meus motivos, obviamente, não esgotam a defesa dessa leitura, o que quer dizer que não são os únicos possíveis...). É indizível o prazer, e o crescimento que o acompanha, entranhados no ato de conhecer a obra desse historiador grego, um dos primeiros de que se tem notícia, senão o primeiro (Tucídides lhe é posterior, mas não sei se há alguém anterior...). A imaginação se expande, rumo ao infinito, quando os olhos percorrem a história das guerras médicas, da loucura de Cambises, do cerco de termópila, dos costumes dos persas, medos, citas, egípcios, tessálios... etc., etc., etc. Esse é o prazer: imaginar. O conhecimento, por sua vez, reside principalmente num aprofundamento da noção da complexidade do caldo humano, caldo em que cabem inúmeros ingredientes, muitas vezes contraditórios. Heródoto nos dá uma infinidade desses ingredientes, e do contato com eles saímos mais maduros, mais ponderados: mais humanos.
  

sábado, 25 de dezembro de 2010

Meu grito!

FORMOSA

a minha goiabeira, do quintal da santos dumont... por quantas vezes, amiga minha, em noites pesadas, de sono que mais parece vigília doente, de vigília que mais parece sono de morte, minha alma se desprenderá de meu corpo e viajará os milhares de quilômetros que nos separam, e adentrará aquela casa de vivências tão curtas, e se sentará no vão de tua forquilha maior, e se lançará ao futuro, em sonhos de vida mais abençoada, mais terna, mais doce que esta moribundície que insiste em me açoitar... ah! sonhar!... de olhos vorazes, calorosos, sonhar, amiga, sonhar!... erguer-se da vala dos males presentes, armado de fé, de fogo interior, de músculos otimistas, e de coragem, sobretudo de coragem, para enfrentar os escorpiões, as serpentes, os agentes de nosso inferno cotidiano, e construir uma vida mais fraterna, mais pacífica, mais amorosa, mais bela e mais prolífica!... entrego-me a esse ideal de conquista, sabendo que o caminho que nos leva à sua realização só pode ser um: a luta.