Se você quiser ser minha namorada,
prometo te dar, como um travesseiro,
o lado mais à esquerda
do meu lado esquerdo,
e pôr no serviço de teu cuidar
o meu já tão tatuado
braço direito.
Tatuado pelo tempo,
por um sem-número de "Marias...
e Clarices",
que se deixaram varrer
e carregar pelos ventos
do Devir.
Impossível apagar esses nomes,
para escrever o teu de maneira
mais límpida.
Antes: escolher uma cor a mais berrante,
e cruzar a pele de cima a baixo
com referências de nossos encontros fortuitos,
de modo a não deixar dúvidas
sobre quem trará alívio - enfim eficaz -,
à dor que me consome,
e me nega a paz.
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segunda-feira, 18 de novembro de 2013
domingo, 17 de novembro de 2013
KUNDERA, MANN, E ETC.
É impressionante como não se ouve nem se lê muita crítica tratando do enorme romance A brincadeira, de Milan Kundera! É talvez o mais perfeito que eu já li na minha vida, e olhe que eu já li alguma coisa!
O romance de Kundera é profundamente filosófico, com visões de mundo e personagens contrastantes, contraditórios às vezes, com um senso do caráter contingente e extremamente problemático da condição humana, que espanta. Vai além, muito mais além, de A montanha mágica, de Thomas Mann, que tem um certo ar "forçado", pedante. Kundera consegue ser mais filosófico porque mais orgânico.
E, claro, há a tristeza que emana de A brincadeira, o sentimento irrefreável de ter sido derrotado pelo Tempo e seus fantoches, suas engrenagens.
É preciso ler A brincadeira.
E A montanha mágica também.
O romance de Kundera é profundamente filosófico, com visões de mundo e personagens contrastantes, contraditórios às vezes, com um senso do caráter contingente e extremamente problemático da condição humana, que espanta. Vai além, muito mais além, de A montanha mágica, de Thomas Mann, que tem um certo ar "forçado", pedante. Kundera consegue ser mais filosófico porque mais orgânico.
E, claro, há a tristeza que emana de A brincadeira, o sentimento irrefreável de ter sido derrotado pelo Tempo e seus fantoches, suas engrenagens.
É preciso ler A brincadeira.
E A montanha mágica também.
O NECESSÁRIO MOVIMENTO
Está havendo um amplo movimento em meu modo de pensar, uma mudança: trata-se do reconhecimento de que o fato de as coisas serem como são é um grande advogado desse modo de ser, o delas. Não que eu esteja me tornando um conservador, não é isso, mas... é preciso admitir o que existe tal como ele existe, ou não? E indo além: deve haver uma razão muito, muito forte, uma razão ontológica, quiçá metafísica, para que aquilo cuja existência constatamos exista do modo como o constatamos.
Claro, é uma hipótese.
Claro, é uma hipótese.
sábado, 16 de novembro de 2013
ALGUMAS NOTAS
O mundo está tão cheio de beleza e de espanto, de maravilhamento, que é até possível passar por ele sem se deixar derrubar quando ele nos corta a carne, e nos rasga e nos sangra, sem que nada tenhamos feito de mal.
Tive uma intuição hoje, quem sabe mesmo uma mensagem vinda do além, de algum além, dentre muitos possíveis: minha literatura e filosofia, se existem, são uma busca desesperada por Iluminação. Será?
Para variar, estou amando de novo, e não a mesma moça. Ninguém entende Vinícius de Moraes como eu entendo...
A música me faz pensar em ti, "Alessandra", nestes dias ela tem me trazido o teu rosto minuto a minuto. E o verso que mais me emociona é: "You know I've seen a lot of the world can do/ And it's breaking my heart in two/ Because I never want to see you sad girl", claro, de Cat Stevens (Yusuf), o "mago" que capturou e escravizou meus ouvidos, desde ontem.
Eu poderia citar também Cartola, e O mundo é um moinho: Ah, como eu queria te proteger, minha linda moça, da mão de pilão do Tempo e da Vida-Realidade, mas... estamos fadados. Eu também.
O Natal vem chegando, e meu coração começa a compassar, e meu sorriso quer aparecer, e minha mão quer ser estendida: a quem?
Tive uma intuição hoje, quem sabe mesmo uma mensagem vinda do além, de algum além, dentre muitos possíveis: minha literatura e filosofia, se existem, são uma busca desesperada por Iluminação. Será?
Para variar, estou amando de novo, e não a mesma moça. Ninguém entende Vinícius de Moraes como eu entendo...
A música me faz pensar em ti, "Alessandra", nestes dias ela tem me trazido o teu rosto minuto a minuto. E o verso que mais me emociona é: "You know I've seen a lot of the world can do/ And it's breaking my heart in two/ Because I never want to see you sad girl", claro, de Cat Stevens (Yusuf), o "mago" que capturou e escravizou meus ouvidos, desde ontem.
Eu poderia citar também Cartola, e O mundo é um moinho: Ah, como eu queria te proteger, minha linda moça, da mão de pilão do Tempo e da Vida-Realidade, mas... estamos fadados. Eu também.
O Natal vem chegando, e meu coração começa a compassar, e meu sorriso quer aparecer, e minha mão quer ser estendida: a quem?
domingo, 10 de novembro de 2013
O DUPLO
Vou iniciar um raciocínio que me parece de grande valia. Pretendo explorá-lo aqui, nos próximos posts; neste farei apenas a proposição do problema. Então vamos a ela.
Imagine que exatamente no seu aniversário de dezoito anos, você se duplicasse, e o seu duplo fosse alojado numa espécie de "sala mágica", onde ele visse numa tela toda a vida do alter-ego dele, isto é, você, o "original", que está lá, vivendo no mundo real, fora da sala, ignorando que há um duplo acompanhando-o.
O que você acha: ele, o duplo, seria sempre advogado de si mesmo, ou seja, seu advogado, ou haveria discordância entre as duas versões do mesmo "eu"?
Imagine que exatamente no seu aniversário de dezoito anos, você se duplicasse, e o seu duplo fosse alojado numa espécie de "sala mágica", onde ele visse numa tela toda a vida do alter-ego dele, isto é, você, o "original", que está lá, vivendo no mundo real, fora da sala, ignorando que há um duplo acompanhando-o.
O que você acha: ele, o duplo, seria sempre advogado de si mesmo, ou seja, seu advogado, ou haveria discordância entre as duas versões do mesmo "eu"?
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
A HORA É AGORA!
É triste, mas na maior parte de minha vida eu estava projetando o futuro. A felicidade estava no futuro. O presente era sempre provisório, o futuro, ao contrário, seria pautado por soluções para os problemas que me afligiam. Tudo, tudo estava por vir, por ser alcançado.
Bom, eu hoje tenho 36 anos, e então me pergunto: e aí? Já chegou o futuro, ou ainda está lá, no horizonte?
Para responder, fiz o seguinte teste: peguei o que eu faço hoje, e projetei no passado, como projeção para o futuro naquele passado. Me explico: como seria eu, há quinze anos, pensando em fazer o que faço hoje, quinze anos depois, quando "hoje" chegasse?
Resultado: eu pensaria: aí está uma boa parte do que chamamos felicidade.
Só que hoje, antes de fazer esse teste, eu já estava, de novo, projetando o futuro, achando que o presente era de pouca valia.
Então penso comigo: Daniel, fodam-se os problemas, o presente é bom, e é nele que está a vida! Se continuar projetando, e ansiando, e esperando, e angustiando, sem viver o agora, cê vai morrer sem ter vivido, porra!
Verdade. Muito verdadeira.
Então é isso, vamos lá, ver se vivo alguma porra nesse futuro convertido em presente, nesse presente que é o meu, com suas dores e seu sorrir. Ao que me parece, é o primeiro passo.
Bom, eu hoje tenho 36 anos, e então me pergunto: e aí? Já chegou o futuro, ou ainda está lá, no horizonte?
Para responder, fiz o seguinte teste: peguei o que eu faço hoje, e projetei no passado, como projeção para o futuro naquele passado. Me explico: como seria eu, há quinze anos, pensando em fazer o que faço hoje, quinze anos depois, quando "hoje" chegasse?
Resultado: eu pensaria: aí está uma boa parte do que chamamos felicidade.
Só que hoje, antes de fazer esse teste, eu já estava, de novo, projetando o futuro, achando que o presente era de pouca valia.
Então penso comigo: Daniel, fodam-se os problemas, o presente é bom, e é nele que está a vida! Se continuar projetando, e ansiando, e esperando, e angustiando, sem viver o agora, cê vai morrer sem ter vivido, porra!
Verdade. Muito verdadeira.
Então é isso, vamos lá, ver se vivo alguma porra nesse futuro convertido em presente, nesse presente que é o meu, com suas dores e seu sorrir. Ao que me parece, é o primeiro passo.
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
O LIVREIRO DE CABUL
Terminei esta semana a leitura do livro de Asne Seierstad. Devo dizer que imagino o que - como ela confessou, a guisa de prefácio - a revoltou e fez sentir ódio como nunca sentira antes na vida. De fato, as mulheres são especialmente maltratadas, na cultura afegã. Penso principalmente em Leila, mas poderia citar também Shakila, e outras. E os "meninos" filhos do patriarca livreiro também não têm vida fácil.
Mas o que quero expor aqui é o sentimento muito vivo que esse livro suscitou em mim da viabilidade de outras culturas radicalmente diferentes da minha. Sim, eu vislumbrei um sentido, uma razão de ser, para os costumes afegãos. Consegui enxergar aquilo pelo quê os talibãs lutam, e embora eu defenda uma posição diferente, e muito embora eu execre os métodos de que eles se servem, sou obrigado a admitir que eles têm a sua lógica. Não são macacos.
No entanto, continuo um adversário ferrenho do adágio francês Tout comprendre c'est tout pardonner: procuro compreender, mas me recuso a perdoar.
P. S. Lembrando que o Afeganistão não é só o Talibã, não é nem majoritariamente o Talibã.
Mas o que quero expor aqui é o sentimento muito vivo que esse livro suscitou em mim da viabilidade de outras culturas radicalmente diferentes da minha. Sim, eu vislumbrei um sentido, uma razão de ser, para os costumes afegãos. Consegui enxergar aquilo pelo quê os talibãs lutam, e embora eu defenda uma posição diferente, e muito embora eu execre os métodos de que eles se servem, sou obrigado a admitir que eles têm a sua lógica. Não são macacos.
No entanto, continuo um adversário ferrenho do adágio francês Tout comprendre c'est tout pardonner: procuro compreender, mas me recuso a perdoar.
P. S. Lembrando que o Afeganistão não é só o Talibã, não é nem majoritariamente o Talibã.
sábado, 19 de outubro de 2013
UMA INTERPRETAÇÃO PARA A 9º SINFONIA, DE BEETHOVEN
Me ocorreu agorinha, ouvindo-a.
Esta obra é nada mais nada menos que a biografia de Beethoven, ou, mais genericamente, a história de uma busca, a busca por felicidade.
Os três primeiros movimentos são o período pré-surdez.
No quarto movimento, ela acontece, a surdez. Não à toa, este movimento tem passagens muito parecidas com algumas do primeiro. Uma espécie de renascimento.
A melodia dominante na Ode à alegria é a expressão da felicidade, espalhada em muitos momentos de alegria. É, claro, uma retomada de algo que era perseguido nos movimentos anteriores, mas não era encontrado. Entrevia-se, no máximo esboçado. Ou seja: Beethoven, como muitos de nós, passou a juventude e a idade adulta buscando a felicidade, para só na maturidade encontrá-la, pasmem, como que perdida no passado. É na surdez que ele se descobre um homem feliz, e, uma vez mais não à toa, é no meio do quarto movimento, o movimento da surdez, que se dá a ver o coro, como a primavera sonora que devia ser a memória do Beethoven surdo. A explosão de sons do quarto movimento, o coração de Beethoven.
É isso. Espero desenvolver futuramente isto aqui.
Tchüss!
Esta obra é nada mais nada menos que a biografia de Beethoven, ou, mais genericamente, a história de uma busca, a busca por felicidade.
Os três primeiros movimentos são o período pré-surdez.
No quarto movimento, ela acontece, a surdez. Não à toa, este movimento tem passagens muito parecidas com algumas do primeiro. Uma espécie de renascimento.
A melodia dominante na Ode à alegria é a expressão da felicidade, espalhada em muitos momentos de alegria. É, claro, uma retomada de algo que era perseguido nos movimentos anteriores, mas não era encontrado. Entrevia-se, no máximo esboçado. Ou seja: Beethoven, como muitos de nós, passou a juventude e a idade adulta buscando a felicidade, para só na maturidade encontrá-la, pasmem, como que perdida no passado. É na surdez que ele se descobre um homem feliz, e, uma vez mais não à toa, é no meio do quarto movimento, o movimento da surdez, que se dá a ver o coro, como a primavera sonora que devia ser a memória do Beethoven surdo. A explosão de sons do quarto movimento, o coração de Beethoven.
É isso. Espero desenvolver futuramente isto aqui.
Tchüss!
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
DE TODA AÇÃO
Escrevi aqui, três ou quatro posts atrás, sobre a ação aberta e a fechada: não, eu não ignoro o fato de que em certo grau toda e qualquer ação é aberta. É como eu disse: em certo grau. É impossível prever todos os desdobramentos de qualquer ação que se tome. Sim, eu sei disso. Mas... há ações com resultados mais previsíveis que outras, e há ações em que o ator intenta algo mais fechado. Forçoso é observar que se o ator intenta algo mais fechado, por meio de uma ação com resultado pouco previsível, ele está sendo mau administrador. Simples assim. Mas se ele busca algo mais fechado por meio de uma ação testada e testada, ação com resultados razoavelmente previsíveis; ou se, por outro lado, ele intenta algo mais aberto, por meio de uma ação com maior pluralidade de resultados previsíveis, e/ou com um risco maior, isto é, com maior amplitude de desdobramentos desconhecidos e não-estimáveis, então: ele está sendo coerente. Ponto. Por enquanto.
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