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sábado, 20 de abril de 2013

UM POUCO DA MINHA HISTÓRIA...


O primeiro gol

Me lembro... eu completava oito anos, meu irmão seis, e comemorávamos juntos, numa única festa. Vinham os coleguinhas do colégio, pai e mãe convidavam amigos, a molecada podendo usar, abusar e lambuzar – o quintal, que a sala era lugar pra adultos. Uma hora, chegava um vizinho, magro e bonachão – “Ôpa, quem tá fazendo aniversário aí, que ouvi dizer?” – e trazendo embrulhos. Corríamos até ele, e notávamos: um era redondo. Ele estendia os braços, este, o redondo, em minha direção, o outro a meu irmão. Eu pegava, vendo de esguelha meu irmão rasgar o papel de presente, e exibir satisfeito um caminhão cheio de cavalinhos de plástico na carroceria. Eu – “Diacho... quê que eu vou fazer com isso?” – pensava. – “Não vai desembrulhar não, meu filho?” – minha mãe perguntava, o homem sorrindo amarelo, – “Ué, é uma bola, não é?” – eu respondia – “Vou botar lá no quarto, amanhã eu desembrulho...” – e saía. Dias depois, trocava por um estilingue, cum moleque da rua. É como era. Vivíamos numa cidadezinha lá do interiorzão de Goiás, hoje centro do novíssimo estado do Tocantins, onde permaneci até os dez anos, e onde minha vida era correr as ruas de terra batida montado na Caloi Cross, e me enfurnar em trilhas atrás de riachos e cachoeiras, e ir mergulhar da pedra da beira-rio, um pequeno penhasco às margens do Tocantins. Futebol?... nada. Morava defronte ao muro do estádio municipal – só um campão cercado de mato – e meu contato com a bola se resumia a catá-la e atirá-la de volta quando vinha quicar em frente de casa.
Nos mudamos então pro Rio de Janeiro. Lá, invariavelmente, me via obrigado a jogar futebol nas aulas de educação física. E tinha uma participação até que digna de menção: me mandavam à defesa – “Fica aí. A bola aparecendo você chuta pra frente, pro lado, pra onde o nariz apontar, só não chuta pra trás, entendeu?” – um mais velho, dos que eram escolhidos pra escolher time, me dizia, e eu ali ficava, às vezes não contendo um impulso e metendo a mão ou o braço na bola... Pênalti. E xingos, saliva respingando na testa. Às vezes, o professor organizava campeonatos, aos domingos. Eu acordava cedo, preparava um café reforçado, o pai reparando – “Vai aonde, filho?” – “Pra escola. Vai ter um campeonato de futebol.” – “Ah, bom!... muito bom. Faz muito bem em praticar um esporte, você é um garoto muito quieto, introvertido... vai te fazer bem!” - É. Lá eu ia. Separavam os times, jogos de camisa, árbitro e tudo. Prometia a mim mesmo que me esforçaria. Começado o jogo, disputava, roubava a bola do adversário, e disparava em carreira – “É só correr mais que todos...” – pensava. Mas no meio do caminho, parava, olhando em volta – “Cansei...” – dizia, arfando. Um companheiro gritava – “Tá louco?! olha a bola!” – “Ah, é!... a bola...” – já um do outro time passava e a levava... No final, o capitão – “Bicho, você é muito rúim! o maior pereba que eu já vi! quê que cê veio fazer aqui?”.
E foi assim por todo o primeiro ano, até que... aconteceu: numa aula em que o professor cismou de, invés de dividir a turma em vários times, fazer apenas dois, bolão contra bolão. Separavam o pessoal, cada um se posicionando onde quisesse. Olhei: a defesa vazia... – “Ali nunca ninguém quer... e é onde sempre me colocam...” – murmurei – “Pois é pra lá mesmo que vou” – decidia, não sem certo temor. Sabia que lá haveria cruzamentos, e que teria de interceptá-los com a cabeça: eu tinha um medo terrível de cabecear, a bola doía, era dura, e nunca acertava, pegava no nariz, na nuca, e quando pegava, que às vezes, simplesmente passava... Mas neste dia, não: neste dia, qualquer coisa lá dentro trepidava, queria mudar, queria chegar nos mais velhos olhando firme e dizer – “Pereba é a mãe!”. Daria um basta, seria o Interceptador, saltaria olhando pra bola, acompanhando seu movimento, e quando ela chegasse... Pumpf!... meteria a cabeça, a espirrando pra fora, todos boquiabertos se perguntando – “Quem é aquela muralha ali na defesa?”. Ia pra lá, encontrava o goleiro, dois ou três outros zagueiros pernas-de-pau, e um carinha do outro time, já prostrado na banheira antes mesmo do jogo começar. O goleiro me olhava contrariado – “Você não é d’outro time não?”. Respondia que não, no que ele – “Sei... é, fazer o quê...”. Rolava a bola. Logo no comecinho, um deles escapava pela direita e descia em velocidade. Prendia os olhos nele – “Lá vem cruzamento, lá vem cruzamento!” – pensava – “Ele vai cruzar, o desgraçado vai cruzar! olho na bola! olho na bola quando ela vier!”. Assim foi: lá vinha ela. Da linha de fundo, cheia de efeito, em minha direção – “Deixa comigo!” – gritei. Subi, de olhos abertos, esticando a cabeça à frente – “Vou tirar essa bola” – dizia, a frase ecoando em meus pensamentos – “tirar essa bola, tirar essa bola...”. No momento da cabeçada... pois é: o momento da cabeçada... Ventava? Não sei... Não me lembro. Sei que pisquei os olhos e, quando vi, a bola quicava dentro do gol, o goleiro assistindo aturdido. Sim, caro leitor: um golaço! Um pouco tonto com a pancada, olhei em direção ao centro do campo: lá, uma turba cheia de sangue nos olhos, envolta em poeira, apontava pra mim. Tremi – “é hoje... vou ser espancado.” – pensei, e não duas vezes: saí correndo. Um grandão tentava me parar – “Peraí! peraí moleque!” – perar?... me pegassem, era uma vez um pereba. Continuei correndo, em zigue-zague, me esquivando de todos, até que... até que o tal me pegou, e todos me pegaram, e me levantaram, gritando – “Êe! viva! viva o pequeno Zico! é o novo Zico!...” – e me carregaram pelo campo. Quando voltei ao chão...

O que virá, dirão alguns, não é algo decente, algo que devamos ensinar aos nossos filhos. Não duvido. Entretanto, na vida, por vezes em número maior do que gostaríamos, as coisas não acontecem como planejamos, e somos obrigados a adaptar. Se apenas os fortes, e oportunistas, sobrevivem neste mundo, é algo que não sei. Sei que ainda estou vivo. Enfim... o fato é que aquele jogo era um enorme embolado, alguns de camiseta, outros sem, só se sabendo quem jogava contra quem entre os bons. Os perebas... bom, esses compunham a massa disforme, destinada apenas a completar o quadro. Assim, num piscar de constrangimento, de incapacidade de, posto ao chão, dizer a verdade, a visão duma saída relampejou em minha mente – “Não serei mais zagueiro: serei atacante!... é muito melhor, todos preferem ser atacantes. Pelé era atacante, Zico também. Zico... tão me chamando de o pequeno Zico...”.

Quando voltei ao chão, fui à minha pequena área, e mandei uma banana ao goleiro – “Se ferrou! você tava certo: eu era d’outro time!” – e depois corri em direção ao centro do campo. Era o maior, tinha feito um golaço. Um mais velho, dos que eram escolhidos pra escolher time, me dava um tapa no ombro – “Tem futuro, moleque!...”.
É. Tive futuro por mais ou menos cinco minutos. Depois, o jogo continuou, e eu, triste sina, voltei a ser um pereba. Nos dias seguintes, também não deixei de estar entre os últimos escolhidos, o incidente do meu gol sendo logo esquecido. Mas... algo tinha mudado. Eu agora sabia o que era o futebol. Tinha feito um gol!... Só quem já fez compreende. Se as meninas não esquecem seu primeiro sutiã, nós tampouco esquecemos nosso primeiro gol, ainda que... bom, ainda que tenha sido contra. E isso... isso lá também teve suas conseqüências... Passei a evitar me esbarrar com o goleiro pelos corredores da escola, me vendo agora no meio duma situação estranha, complicada: sempre que começava a contar a história do meu gol a um amigo, me entusiasmava, punha ênfase nos detalhes, aumentava, orgulhoso de ter feito um golaço, mergulhando em peixinho, e ter sido carregado dentro de campo; à noite, porém, relembrava, e o saber que eu sabia, a consciência da mentira, me assombrava, corroía. Com o passar dos dias, no entanto, ia descobrindo que as coisas da vida podiam ser descascadas, espremidas, e podíamos mesmo viver delas só o suco, escondendo as cascas e o bagaço. Pegava então meu gol, torcia, recortava, desbastava, imaginando em seguida um alçapão, que abria, e despejava lá os restos de minhas cirurgias. Mais tarde, muito mais tarde, esse alçapão pulsaria, abarrotado, esta uma outra história. O fato é que, fosse eu convidado a escolher uma data, a fixar um dia pro fim de minha infância, e o começo da adolescência, este talvez fosse o dia em que fiz meu primeiro gol. Quem disse que futebol não é coisa séria? 

quarta-feira, 17 de abril de 2013

MEU AMAR-TE

Sonhei que era só,
sonhei que era perdido:
cercado de brumas,
não estava contigo.

Enquanto o mar, ao longe,
dita canções ao monge,
eu, sem tua doce voz,
vou compondo um "nós",
sem saber ao certo
se teus sonhos de flor,
se teu pensar, teu universo,
abraçariam meu calor...

E meu calor é antigo...

Chegará o dia de perguntar,
chegará a vez de ouvir;
hoje, porém, ponho-me aqui,
como em cordel a falar
o que possa, sem nenhuma dúvida,
dar-te a imagem de minha ternura,
a mais bela de minhas artes:
o meu sincero amar-te...

Sonhei que era só,
chorando por um abrigo;
sonhei que era só,
então fui atendido: 

Abriguei-me no amar-te,
Que é sempre, sempre comigo...


  

sábado, 13 de abril de 2013

NO VENTO...

Vai, minha alma,
no vento, sussurrando
versos d'água,
vai, e diz a todos,
irmãos e irmãs,
que o mundo-calabouço
já não dá o tom
à minha vida,
porque sei, então,
que por pouco
que possa meu braço,
ele sempre alcançará
o rosto cujo destino
é receber o seu afago,
e a semente a ser plantada,
e a terra, que se nunca diz
dos seus segredos de chão,
será sempre amiga
dum coração de camponês,
(ou quem sabe de leão),
mas coração de poeta,
e de afeições sinceras,
pequena coleção.



PARA QUÊ?

Para que serve o amor?
Para tornar todas as tarefas cotidianas
um fardo incomensurável,
e então estarmos nós no sofá,
a tentar domar o nó nas entranhas,
a fabricar alguma vontade,
ao menos ver qualquer bobagem
na TV?

Para que serve, isso que nos acossa,
e sem dó nos apedreja?
Para nos transformar
numa barafunda de não-prioridades,
a bocejar o dia inteiro,
e à noite, com olhos de coruja,
desenhamos, dedos no ar,
no breu do quarto a silhueta amada,
compondo mil afagos
para com nosso corpo,
sedento de uma nudez
que sabe Deus quando, e se, virá?

Não.
Se o que se disse é verdade,
o amor, no entanto, não serve para isso.
O amor serve, apenas,
para que nossos amigos,
quando toparem conosco,
leiam em nossos olhos
que ainda não chegou a hora
de alimentar a terra;
para que sintam nosso aperto de mão
ainda firme, incisivo talvez;
e para que todos, sejam o que forem,
nos respeitem como alguém
que certamente não anda sobre a água,
mas cuja alma sabe bem o que é
voar.





LÁ FORA, A GAROA

Lá fora, a garoa:
saio para caminhar,
sinto o fresco do ar no meu rosto,
e os finíssimos pingos d'água
que me acariciam, suaves,
o coração exposto.

Um mal-estar que não me deixa,
a vontade de gritar o nome dela,
de sair correndo sem rumo,
de perguntar a cada transeunte
se acaso não a viu
nalguma janela?
se não a ouviu dizer algo de mim?
se não é verdade
que ela também anseia
por esse calor que me varre
todo ânimo, todo gosto,
que me despoja de mim mesmo,
para logo me trazer de volta
atado a mil receios?

Mas é preciso não sofrer...
Eu sei disso.

Tenho, guardado comigo,
o toque dos dedos,
e a súbita fraqueza da voz,
numa frase assim, tão simplória,
mas que revelava tanto, tanto...
toda desejo, e medo.

Tenho muito,
e é maravilhoso...

Tenho muito,
e é maravilhoso.



quinta-feira, 11 de abril de 2013

PARA S.

Me dá tua mão
menina-moça, Mulher;
me dá teu sorriso
e teu olhar tristonho,
tão entregue,
que deles farei versos
de lua branca, como a tua pele,
de querer desesperado,
e de verde florescer,
em que me vejo, alegre...

Os dias seguem
e o ar vai faltando...
uma preguiça angustiada,
um alheamento
quando a casa é cheia,
e uma inquietude
quando é calma...

Meu pensamento te procura,
sempre, em tudo,
e chega a parecer um crime,
quando contigo não sonho...

Sim, um crime...

Me dá, então, tua mão,
para que juntos
penetremos o nevoeiro,
e convençamos os deuses do sono
de que somente
com teu corpo colado ao meu
podemos enfrentar
nosso humano abandono.
 

domingo, 7 de abril de 2013

BLACK NIGHT

Black night
Why do you never leave me?
Why are you always pacing my heart
And borrowing my sky?

Oh Black night
Could you listen to my thoughts
And forgive my foolish signs?

Black night
Your sorrow is all mine...

Black night
An ancient fear
Has turned into my only sight.

Oh Black night
Plunge into my eyes
And make my daily song a lie.

TEXTOS PEQUENOS

Não tenho tido paciência de escrever textos "de fôlego".
Em compensação, os minúsculos (mini-contos, haikais) têm aparecido quase todo dia.
Ontem mesmo, escrevi meu mini-conto de número 200.
Será que dá para viver disso?

quinta-feira, 4 de abril de 2013

UMA VERDADE INCÔMODA

Só sabe o valor de uma vida aquele que decidiu doar a própria em nome de algo que a ultrapassasse.