Pesquisar

terça-feira, 14 de maio de 2013

NA PRAÇA DO RELÓGIO


Na Praça do Relógio

...Na sala de aula, certos arranhões no revestimento da parede lembram os rastros de espuma deixados por um barco nas águas duma baía, outros uma nebulosa ou a própria Via Láctea vista de fora, e outros ainda os grandes lábios de Janaína. No batente da porta, há teias e uma pequenina traça enfurnada numa ranhura da madeira. Engraçado... – “Será que as aranhas não comem as traças?...” – pensa consigo. Inspira fundo... – “E a Via Láctea vista de fora?... Como eu sei isso?... De onde veio a imagem que tenho na cabeça?...”. Expira. Vasculha a memória... – “Talvez uma foto de revista... Com certeza uma simulação... Não dá pra mandar satélite pra fora da Via Láctea...”. Inspira... – “Ou será que dá?”. Medita um segundo... Expira – “Sei lá.” Abre um livro. Doutro lado da sala, um de terno e gravata cochila com a cabeça caída sobre a maleta; lá no fundo, duas outras, uma de saia, outra sem sutiã, discutem sobre o trabalho de fonética que é pra daqui a uma semana, e que ainda nem foi começado, e depois acabam emendando numa troca de receitas de pudim; e mais ninguém. Há rumores de greve, e em situações como essa, sobretudo em noites de quinta-feira, é comum os alunos receberem em seus joelhos a visita duma súbita fraqueza, e então darem o sinal ao ônibus errado, e baterem em casa mais cedo. Fecha o livro, abre o caderno. Rabisca um desenho. Lembra de quando desenhava... Faz muito tempo. Na infância, seus cadernos eram cheios de desenhos de animais selvagens, super-heróis, paisagens... Rabisca um rosto de mulher. Começa pelo nariz (ele sempre começa rostos pelo nariz...), em vista diagonal, uma curva suave terminando num pequenino triângulo, depois o queixo... Pára um segundo, examinando o que fez... – “Deixa pra lá...” – murmura. Abre o livro – “Mal chegou, Drogo apresentou-se ao Major Matti...”. Um ruído de passos incrivelmente decididos vem chegando lá do fundo do corredor e já cruza a porta. Ergue a cabeça: lá estão três membros duma chapa que concorreu e não venceu a última eleição pro Centro Acadêmico... Recebe um panfleto. Um de bigode fala, enquanto o de terno e gravata agora cochila de olhos abertos e as duas trocam receitas por telepatia. Constrange-se e presta atenção ao que o homem diz... Está chamando a todos prum ato na Praça do Relógio, um ato de repúdio à política do reitor que não contrata novos professores, um ato de repúdio à política do estado que não cede aos pedidos de aumento da cota do ICMS pras universidades, por fim um ato de repúdio à política imperialista dos EUA... Ele fecha o livro, enquanto seis olhos acompanham seus movimentos – “Vamos lá, amigos?... precisamos reunir o máximo de alunos neste ato, é muito importante...” – diz o de bigode – “Claro, claro...” – ele responde, juntando seu material, e agora um ruído de seis pés incrivelmente decididos e dois adjuntos percorre os corredores da faculdade. Alguns dois outros alunos são pinçados em outras salas, e já estão nas escadas, fora do prédio. O de bigode propõe irem à ECA – Escola de Comunicações e Artes, logo ali – tentar reunir mais pessoal. Todos concordam. Vão descendo a avenida... o de bigode engatando uma conversa com o outro do grupo dos três, um sem bigode (o terceiro é uma baixinha, que leva uma faixa enrolada nas mãos). Parecem continuar algo que foi interrompido pelas visitas em sala... o de bigode – “Quanto àquela tese do Max Weber, que você falou, de que um país socialista só poderia ser administrado por uma burocracia, e que portanto não seria uma sociedade sem classes, pois haveria uma classe privilegiada, a dos burocratas do Estado, você precisa entender que não precisa ser daquele jeito. Se você pega a obra de Lênin, você vai ver o que eu tô te dizendo. O comunismo que a gente pretende não é aquele da União Soviética, é um comunismo diferente...” – “Sei...” – “É. É possível...” – “Mas seria algo conquistado por meio duma revolução?” – “É. Seria.” – “Tá, e o que vem depois duma revolução não é, via de regra, uma ditadura?” – “E nós vivemos o quê?” – e pára, acendendo um cigarro, mirando o alto, pr’além das copas das árvores. Dá uma tragada funda, depois soltando lento a fumaça – “É a ditadura da burguesia...” – diz, correndo a vista em redor, onde só há árvores, dormindo o sono apolítico dos vegetais.
ECA. O C.A. de lá não está colaborando, diz o de bigode – “Acham que os alunos estão em refluxo... essa é boa!”. Os dois alguns pinçados na Letras sumiram, mas o grupo dos três nem dá pela falta, e segue em frente. Os corredores, e salas, estão vazios. Num mural, o cartaz de Homens de papel, que será encenada no Teatro Laboratório. Finalmente uma sala com aula, em que uma numerosa dezena de alunos ouve letárgica o de bigode chamá-los ao ato na Praça do Relógio, e vai girando a cabeça, de boca aberta, como jacarés tomando sol à beira dum rio, enquanto o de bigode caminha até a porta – “Quem vai nos acompanhar nesse ato?... Alguém?... Pessoal, é muito importante a participação de todos, a nossa universidade está sendo sucateada... Bom, se alguém se interessar, pode nos alcançar no corredor, ok?... Brigado pela atenção.” – diz, e depois vira as costas, e fecha a porta, seguido pelo vácuo silencioso dos olhos lá de dentro. Continuam pelo corredor. Uma sala vazia, outra sala vazia, numa terceira um funcionário corcunda, vestido de azul, passando um rodo no chão. Levanta o rosto na direção deles – “Hã?... Cês tão procurando quem?... Ah... Iii... Tst, tst. Tem aula hoje aqui não, rapaz, só uma ou outra...” – diz, abrindo um franco sorriso de três dentes no rosto enrugado. Deixam-no... na última sala, pelo vidro da porta podem ver um professor velho e calvo, os parcos fios de cabelo completamente brancos, percorrer cuma aluna as linhas dum texto aberto no colo dela, enquanto outros dois apenas ouvem. O de bigode entreabre a porta, e pede licença pra falar rapidamente à turma. O professor assente. Entra, e fecha a porta, o resto do grupo ficando de fora. Fica lá alguns minutos e meio, enquanto observam, de fora, apenas os olhares baixos dos alunos, e do professor. O de bigode abre a porta pra sair, e podem ouvir o professor murmurar – “Boa sorte.” – antes que a feche. Terminadas as salas, deixam o prédio, e estão no estacionamento, lá no fundo o Teatro Laboratório, e à frente, o belo melancólico do vazio da Praça do Relógio. O de bigode se despede – “Bom, gente... é isso aí. Acho que duma forma geral a ação de hoje foi positiva, os alunos nos ouviram...” – “Tanto a Letras quanto a ECA tavam vazias...” – interrompe o sem bigode – “É, tavam... Acho que a gente pode com ações mais incisivas trazer mais gente e formar um movimento mais sólido, é só uma questão de continuidade no trabalho. O pessoal vai assimilando... Bom, eu vou caminhar até a História, alguém me acompanha?... Não?... Então até, pessoal, brigado pela participação, e a gente continua amanhã.” – e sai. Os outros dois, o sem bigode e a baixinha, estão agora de mãos dadas e só então ele percebe que são namorados. A baixinha senta num banco da praça, o sem bigode logo depois, passando o braço pelos ombros dela, e ele pode ouvi-los cantando enquanto se afasta – “Morte bela, sentinela sou, do peito desse meu irmão, que se vai...” – e circunda o laguinho, e pára. Um vento frio vem arranhar o rosto, enquanto apenas olha... longe, as luzes do Shopping Villa-lobos e das dezenas de prédios à beira da Marginal Pinheiros espalham-se pelo rio, e por um brevíssimo segundo, parecem compensar o céu sem estrelas, e sem lua.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

NO AR...

No ar, um gosto de espera,
de promessa de chuva e de verde;
no ar, teu nome, ritmado em meu peito...

como causa, e como efeito,
teu nome cerca minha noite e meu dia,
e dos vagões a mim atados, meu fardo,
ele, teu nome, suave me alivia...

Ah... Samira...
Teu nome eu respiro,
e no ar desse momento
consigo repelir o esquecimento,
do modo mais preciso:
sorvendo o ar de teu nome,
grudado às paredes e ao chão,
da falta em que habito.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

NÁUFRAGO


Náufrago

...Vem pela calçada, apostilas e resumos na mão, musiquinhas pra facilitar a decoreba no assobio. Passa a porta do cursinho, cruza a rua, e senta à porta do bar. Só mais essa vez, como sempre. O peso de oito horas de trabalho parece às vezes maior do que o peso de todo um futuro a escolher. Ou não. Vai ver que é do futuro mesmo que se foge. Enfim, suspira e pede uma cerveja. Dali cinco minutos, chega o amigo – “Mais uma!” – já vem pedindo. Termina um copo – “Só vou tomar essa, depois subo.” – diz, o amigo franzindo o pára-vento – “Ah!... Qualé?... Você não vai assistir aula da Ruth!”. É a de Literatura, algo de que ele gosta bastante, e hoje o tema é José Lins do Rego...
         Ela vai passar o Fogo morto...
         Ah, é?
         Tá na lista da Fuvest...
         Ah, é?
         Vou ver se consigo ler... minha única chance é a USP...
         Ô pedrão! vê mais uma?
Queria ter a inconsciência tranqüila e a aptidão alcoólica do amigo. Mal enche o copo, pede outra, entornando o primeiro:
         Ah!... hoje tá foda...
         Quinta-feira é foda....
         Depois de domingo e antes de sábado é foda...
         É...
         Se é...
Ombros, pernas e braços vão amolecendo...
         Preciso mijar...
         Vai lá...
O banheiro é uma privada branca por fora e marrom por dentro, sem pia. Ele abaixa a cabeça, o mundo dá uma girada meio brusca, ele tenta se apoiar na parede e sem querer aperta o botão da descarga. Um riso espirra por entre os lábios, depois outro, e quando vê está gargalhando... Volta:
         Quer saber, eu subo na segunda aula!
         Grande garoto! Aula da Ruth não dá...
         Me lembrei duma piada.
         Ôpa! manda. Pedrão!... siiipf!
         O português tava chamando o elevador...
Passa a aula da Ruth, depois a segunda, que ninguém se lembra mais de quem é, e estão lá, ele gastando todo o estoque de piadas que só agradam a bêbados, e o amigo rindo às lágrimas. Pode-se ver já um pelotão de marronzinhas sobre a mesa...
         Cara, me bateu uma fome... vou pedir um pastel.
         Pede dois...
Vem o pastel, vai o pastel, desce mais uma, sai pra mijar, volta...
         Cê vai prestar o quê mesmo?
         Engenharia.
         Civil?
         Civil.
         Difícil...
         É. E você?
         Tô entre Economia, Matemática, Física, Filosofia e História...
         Pfuvzzz!...
O amigo cospe a cerveja, e já estão rindo de qualquer coisa.
Onze horas:
         Preciso ir embora...
         Eu também...
         O negócio é pedir a conta...
         Pois é...
         Mais uma?
         A saideira...
         Pedrão! a saideira!
É a rodada das saideiras. Uma, duas, três...
         Pedrão! Agora a últchima.
         Com cherteza...
No ônibus, o cobrador diz que a passagem é dois e sessenta e ele não contém o riso:
         Dois e sessenta, é?
         É...
         Dou dois e sessenta?
         É!
E leva a mão à boca, sacudindo os ombros, em seguida respirando fundo...
         Se você dchiz...
E entrega o dinheiro, passa pela roleta e senta, controlando-se.
Em casa, todos já se deitaram. Sobe as escadas engatinhando, de repente as tripas parecendo sofrer um cálculo logarítmico, e um gosto de fagocitose vindo à boca... Corre ao banheiro, põe a cabeça na privada, e um trem vindo a cem quilômetros por hora, em superfície sem atrito, desliza pela garganta e espatifa-se na água. Pisca lento, duas vezes, observando o conteúdo... lê o futuro: fiapos de macarrão, cascas de lentilha, carnes moídas e cacos de berinjela – “É marcante a tensão entre o positivo e o negativo, entre formas lisas, suaves, e outras recortadas, agressivas...” – opina uma das namoradas de Pablito, quando este lhe mostra uma nova tela, no filme Os amores de picasso. – “Num dá pra entender nada. Acho que vou ser economista, ou crítico de arte.” Segue pro quarto. O que quer que estivesse na cama, foi ao chão. Deita, e está numa balsa, perdido em alto mar. As ondas batem na proa, e lambem o fundo, e o mundo balança... – “Uôoo...”. Uma mais forte golpeia a traseira, fazendo com que o barco embique na água... – “Uôôooo...”. Se debate e agarra à cabeceira – “Vai virar!” – por um segundo seu destino parecendo ser os tubarões. Até que as ondas vão, aos poucos, cessando, e o tempo azulando, e o mar respirando sereno, marolando na quina da cama, e pode largar a cabeceira, e fechar os olhos, e esperar um cargueiro, um coqueiro, ou quem sabe o dia seguinte.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

A SAUDADE

Olho o mar, verde esmeralda,
Mas não há mar, nem cor alguma.
Olho o céu, todo estrelado,
Mas não há céu nem estrelas, apenas brumas.

Olho... a ti, Samira,
mas tu não estás, só longe, muito longe...
Enquanto meu coração bate descompassado,
como se tivesses a cabeça pousada em meu peito:
Mas não há peito... só o gasto tambor
de uma saudade que cisma em ver o que não há,
porque sabe o que é preciso
neste agreste meio de caminho.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

PASSEIO NA PAULISTA


Passeio na Paulista

...Era uma comédia romântica, como todas as outras. Lá estavam a madura bem-sucedida pragmática que no fundo era uma colegial suspirante romântica, o aventureiro cafajeste niilista que no fundo era um solitário ressentido... romântico, e a dona-de-casa pós-romântica resignada – elo entre os dois – que no fundo era mesmo uma dona-de-casa pós-romântica resignada, único ser, como se vê, em que essência e aparência não se dissociavam. No final, não é preciso dizer, os primeiros se casam, enquanto a última enxuga lágrimas cum lenço branco. É como se o produtor autor diretor ou seja lá que raios quisesse dizer que a vida é isso aí, é sonhar, um pouco depois casar, ter filhos, e, com o tempo, e as quedas que ele gentilmente nos cede, é resignar-se. Ou não. Talvez o diretor autor produtor ou seja lá que raios não quisesse dizer nada, e não quisesse mesmo coisa alguma além de garantir a renda do pipoqueiro. E a sua própria, claro está. O fato é que eu saí de lá sem saber bem o que dizer. Achei melhor, e creio que sabiamente, passar a vez, ou seja, esperar até que ela se manifestasse, o que não levou três passos – “E aí?... Gostou?” – ela perguntou, assim, de olhinhos baixos, como a semear suspiros nos buracos da calçada. Pois é camarrrada amante de leituras densas, eis o que a vida não se cansa de nos arrumar. Devia eu dar mostras de minhas incursões culturais? Ora, qualquer um sabe que não. Há que se proteger a identidade secreta!... Sob pena de sermos interceptados, e neutralizados, como é freqüente. Sei que afastei meu discurso anti-cinema-formulesco-hollywoodiano, que já estava bem me coçando as têmporas, como quem afasta uma mosca varejeira, dessas que batem bem na hora da sobremesa, doidas pra inviabilizar o nosso pão-doce. Confesso: sou fraco. Não posso defender tese alguma. É surgirem na minha frente olhinhos amorosos de sonhadora umedecida, prontos a enxergar nos meus a grama verde onde erguer paredes alvas, telhados vermelhos e janelas floridas floridas, donde se vê dois ou três moleques remelentos correndo alegremente... Ah, camarrrada, que é a verdade? Quem sabe defini-la? Eu não sei, sei é que esse tipo de visão faz todas as minhas convicções parecerem meras rabugices, mesquinharias. É como a natureza, com seus vendavais e terremotos que, quando querem, nos mostram que podemos, sim senhor, pensar o quanto quisermos, e podemos, sim senhor, edificar o quanto quisermos, que, não senhor, não adiantará nada: seremos sempre caniços, e nada mais. Enfim... o de sempre: o chão treme, e meu discurso, meu nobilíssimo vocabulário, vira pó. Olhei-a sinceramente, e respondi – “Gostei. E você?” – ao que ela respondeu, ar de satisfação – “Gostei. Muito.” Acho que fui inconscientemente honesto. Penso que não gostei, mas no fundo devo ter gostado, embora eu realmente discorde disso. Sei lá. Sei é que eu disse que gostei, e ela disse que gostou, e muito, e que então começou a chover, o que me fez refletir que às vezes a vida se assemelha a um filme ruim, e que isso não é mau. Ela sacou do guarda-chuva, prevenida como deve ser, e eu, despre... Bom, banalidades de lado, seguimos em frente, dividindo o dela, calorosamente mudos, nem aí pra tarde que se despedia molhada e cinzenta por entre os prédios. Coisa linda. Seguimos em frente!... Até a esquina, onde vive uma dessas fábricas de hambúrgueres, em que entramos, devo dizer, por sugestão minha. Enfim, mente poluída pede um corpo poluído. O fato é que ela gosta de molho barbecue, eu prefiro catchup, mas isso não tem importância alguma: as batatas-fritas nos unem!... – “Engraçado. Várias passagens do filme me lembraram você.” – ela disse, ao que eu respondi que não sabia bem o que dizer, a menos que ela me dissesse quais passagens – “Ah... não sei... o cara tinha um ar assim, meio outsider, meio desapegado. Sei lá. Quer dizer... no começo, né. Depois deu pra ver que não era bem isso.” No copriendo. Ou melhor: compreendo. Compreendo que ela compreende bem mais do que eu pensava, uma vez mais. Ah... as mulheres... sempre nos analisando, descavando padrões em nosso comportamento, formulando leis gerais pra nossa personalidade. E há quem diga que elas pensam com os ovários. Verdade é que parecem agir assim apenas com o sexo oposto, que no resto... valha-me deus. Eu disse isso? Não, não disse, mas é certo que pensei, sinal não só de que existo, mas também de que, politicamente, erro. Ou não. Sei lá. O que sei é que não disse nada, só tombei a cabeça meio pro lado, dei de ombros e belisquei uma batata, meio sorrindo, ao que ela meio sorriu também. Êlha copriende. Quando saímos, a chuva parara havia algum tempo, e o céu estava começando a limpar-se, deixando entrever quaisquer estrelas, com o quê não pude reter um – “É... apesar de eu ter crescido no verde, isso aqui até que é bonito...” – e ela gostou – “É lindo. Adoro a Paulista.” – e eu arrisquei – “E tá um clima gostoso, agora, né?... Nem calor nem frio... Tá bom pra caminhar...” – e ela, baixando os olhos, num semi-sorriso só de lábios – “É... tá mesmo...” – e eu – “Não é?...” – e ela – “É...” – e eu – “É...” – e ela, num breve, quase imperceptível suspiro – “É...” – e foi quando dum lado eu pensei que ela já estava quase no ponto, e doutro pensei que eu não devia pensar assim, que talvez mesmo eu não pensasse realmente assim, apenas soltasse dessas vez por outra, naquelas, de canto de boca, reflexo dos muitos anos de frases feitas sobre mulher e cerveja, em verdade não sei, sei é que seguimos em frente, em silêncio, mas não daqueles que pesam, ao contrário, são expressão duma certa leveza de alma, leveza um tanto trepidante, é verdade, naquela mistura que todo aquele que já namorou um dia conhece bem, enfim... Seguimos em frente, rumo à Consolação. Até que ela falou – “Mas você disse que cresceu no verde?... Você não é daqui?” – e eu gostei da pergunta, que a resposta que tenho sempre cai bem a dois... Ah, o lado bom de não ter raízes... Sofre-se, é verdade, mas quanto não se tem pra contar, kammarada, quanto não se tem pra contar!... – “É uma história complicada, mas posso dizer que até os quinze vivi no interior.” – respondi, e ela – “Ah, é?... eu também!... quer dizer, só a infância, né. Mas eu também sou do interior. É outra coisa, né?” – e eu me empolguei – “Se é. Onde eu morava tinha um rio enorme e limpo, onde a gente mergulhava, e minha vida era explorar trilhas no meio do mato de bicicleta, atrás de córregos, cachoeiras... Se é outra coisa!... Se é!” – e ela também – “É... onde eu morava era uma chácara, vivia aparecendo bicho por lá, e tinha um quintalzão, eu pendurava uma rede na varanda e ficava lá, viajando... Eu adoro o verde, a natureza, sabe?” – e eu fui em frente – “É... eu também. Não, e a terra? Já reparou que aqui não tem terra?... As crianças daqui nunca vão saber o que é um bicho-de-pé...” – e ela me seguiu – “É mesmo, né... Era gostosinho de tirar...” – e eu emendei – “Me lembro... eu era porcão, tinha tanta coisa pra fazer que achava banho uma perda de tempo. Às vezes ficava três dias sem tomar.” – e ela emendou – “Eca!... eu também, sabia?” – e eu – “Você!” – e ela – “É, ué... Toda criança, eu acho. Tenho um priminho de seis anos que também não gosta de banho, só toma se for comigo...” – e foi quando dum lado eu pensei que o ponto tinha chegado, e doutro pensei que esse tipo de pensamento um dia me levaria à ruína, embora fosse só pensamento, coisa que, efetivamente, ninguém lê, mas enfim, eu tive de dizer, assim, meio entredentes – “É pequeno mas não é bobo, esse seu priminho...” – e ela só sorriu, e eu tive certeza. Veio um cruzamento, Pamplona? Peixoto Gomide? Eu sei lá, sei é que vinha um Corsa, e ela não viu, ou fez que não viu, e já ia atravessando, quando eu a retive pela mão – “Cuidado!” – e ela, tomando, ou fingindo que tomando, um sustozinho – “Upa!” – e me apertando a mão, que não soltou mais, nem eu, e seguimos em frente... seguimos em frente!... diria, talvez, colegialmente. Doutro lado da rua, diante do metrô, sim senhor, a natureza fez seu trabalho, e eu, como sempre, nunca mais quis ter qualquer idéia. Pensar me deprime. Por que será? Estará o problema no mundo, ou no ato?... Sei lá. Sei é que o pátio do Masp, com seu escurinho, devia ser tombado pelo patrimônio histórico, e protegido a todo custo, se é que já não foi, perdoe-me a ignorância, não sei mesmo muita coisa. O que fizemos? Ora, nada demais, por certo, mas é que belo mesmo é só dizer assim, numa curtinha, sem muito bafalhafa, sem muita filosofia, naquela simplicidade que o velho bandeira, sábio dentre os sábios, sempre soube ser o bem maior: a vida é bela. A vida é bela, meus amigos! Esqueçam de Deus, esqueçam do diabo, esqueçam tudo que não interessa verdadeiramente, que a vida, simplesmente, é bela. Enfim, o ponto de ônibus chegou, o dela, obviamente, e ela disse que precisava ir, e eu disse que tudo bem, e ela me pediu que ligasse, e eu disse que com certeza, e ela foi, e eu resolvi que ia descer a Rebouças a pé mesmo, e que ia pegar o ônibus do outro lado da ponte, e que essa noite ia dormir, sim senhor, como havia algum tempo não dormia. 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O NOME

Te procuro, vida,
em sonho, envolto em treva,
e quanto mais minha alma precisa,
mais é certo que tu não te entregas...

Quero teu beijo, vida,
quero o toque dos teus dedos,
mas, quanto mais anseio, e anseio,
menos tu te arriscas...

Teu beijo...
Como desespero! e meu olhar,
diante de tua imagem, sempre a mesma,
afasta tudo que não é sonhar...

Sim, teu beijo.
E tua pele junto à minha, despida:
é o que minha língua desenha,
quando diz teu nome:
calor que me consome,
doce e terna cantilena,
- eu disse "vida"?
Não é certo...
És bem mais que isso...
És, simplesmente... Samira.

      

quinta-feira, 25 de abril de 2013

REMINISCÊNCIAS

Olho a tua foto, e vem o tempo,
como voz distante, sussurros a viajar
até mim, a me trazer, nas asas de anjo,
a dúvida e o sofrimento: a forja.

Lembrar de ti é lembrar de mim,
há muitos e muitos sóis,
há inúmeros começos, e tão chorados fins...

Lembrar de mim é lembrar de ti,
hoje, e sempre, teu sorriso
desenha minha lágrima, e ela o muito que vivi...

Unidos,
como o céu e o mar em seu beijo azul,
vamos construindo nossa história,
e se ela aponta, sim, para o futuro,
traz, também, relíquias já bem velhas, de volta...

Relíquias de mal de amor...
Relíquias de um poeta, e de escrever: a sua dor.




segunda-feira, 22 de abril de 2013

NIGHT HOUSE


Night House

...Eles vão descendo a Rua Augusta a pé, o colorido do néon dos letreiros das portas dos puteiros iluminando a calçada. De frente duma barraquinha que vende cachorro-quente e churrasco-grego e x-búrguer e pastel e batata-frita uma loira peituda vestindo uma calça jeans e um blusão de crochê cheio de furinhos por onde se pode cobiçar os bicos dos seus peitos arreganha a boca em direção a um pastel oleoso de frango sentada num banquinho. Mais abaixo um dos amigos entra num boteco pra comprar cigarros. De lá de dentro sai uma loira tingida magra-barriguda que encosta no batente da porta e fala pra ele – “Oi garotão... entra mais e me paga uma cerveja, que tal?” – no que ele desconversa olhando pro chão – “Só tô esperando um amigo meu...” – e ela solta uma risada catarrenta – “Riii... não gosta de mulher não, garoto?” – e volta o rosto pra dentro do boteco gritando com voz esganiçada – “Ele aqui não gosta de mulher não, aí!”. O amigo volta e continuam pela calçada. Doutro lado da rua na porta dum puteiro uma mulata rebola devagar mostrando a calcinha enquanto olha pra ele lambendo o beiço. Um negão com pinta de Richard Pryor pára eles – “Peraí, meus senhores, só um instantinho. Posso interrompê-los um instantinho só?... Tão atrás de diversão, não tão? Hã?... Pois é, posso apresentar aos senhores o meu estabelecimento? Só vou mostrar, não precisam pagar agora. Eu levo os senhores lá dentro, vocês olham, vai ter um show agora com o casal Andressa e Leandro, sexo ao vivo, tá, com penetração, com tudo, daí vocês assistem, conhecem as meninas e, se gostarem do ambiente, vocês ficam. Só paga o que consumir, tá. Vocês querendo ficar, vou cobrar uma consumaçãozinha mínima de cinco reais, mas é só. Vocês gostando de alguma menina, e querendo fechar o programa, o quarto é quinze reais, o resto vocês negociam com ela, ok?... Vamos lá?” – e passam por uma portinha e detrás dela um balcão onde está um sujeito de gravatinha borboleta que carimba os cartões de consumação e entrega pra eles – “Pronto, podem entrar. Bom divertimento.” Entram pelo lado esquerdo do balcão passando por umas cortinas roxas. À esquerda está o bar com garrafas de tudo quanto é bebida e copos de tudo quanto é tamanho e formato pendurados. À direita está um estofado de couro preto colado à parede apoiado em tijolo e indo até o fundo onde mulheres loiras e morenas e mulatas e pretas e novas e velhas usando vestidinhos e mini-saias vermelhos e pretos e transparentes estão conversando e sendo apalpadas e lambidas por homens cabeludos e carecas e grisalhos. No fim do bar de frente pro resto do estofado está o palco iluminado por lâmpadas vermelhas e verdes e roxas e depois dele as escadas que sobem à esquerda em direção aos quartos de cima e as escadas que descem à direita em direção aos quartos de baixo. Das de cima vem chegando um casal e o barman anuncia por um microfone o início do show do casal Andressa e Leandro. Eles dão uns beijinhos na boca um do outro, daí ela tira o sutiã e ele chupa os peitinhos dela, daí ele tira a sunga e ela chupa o pau dele, daí ela tira a calcinha e ele chupa o grelinho dela, daí ela levanta a perna direita e ele mete o pau na buceta dela, daí ela deita no chão e dobra o abdômen erguendo o quadril e esticando a perna direita pra direita e a perna esquerda pra esquerda e ele mete o pau na buceta dela, daí ele levanta ela no colo com as duas pernas bem abertas e a gente pode ver bem que ele mete o pau na buceta dela, daí ela ajoelha e ele ejacula dentro da boca dela, e o barman anuncia por um microfone o fim do show do casal Andressa e Leandro. Depois do show uma puta de sutiã vermelho e mini-saia preta olha fundo nos olhos dele enquanto bebe o que parece ser um Martini. Ele levanta e vai até ela e pergunta o nome dela ao que ela responde que é Andressa e ele pergunta se todas as meninas que trabalham ali são Andressas e ela responde que não que só ela e a do show. Os bicos dela fazem o ponteiro dentro da calça dele apontar o norte magnético e então ele pergunta pra ela quanto é o programa. Ela responde que o mínimo dela são cinqüenta reais e ele diz que só pode pagar quarenta e ela diz que quarenta tudo bem mas só por que ele é bonito. Ela pergunta então se ele quer ir direto pro quarto ou se não quer bater um bom papo antes e ele diz que tudo bem um papo. Eles sentam e ela pergunta o nome dele e o que ele faz e ele diz que melhor mesmo é irem logo pro quarto. Chegando lá ela pede que ele espere um pouco ali que ela vai buscar toalhas e então ele fica lá e cheira o lençol e examina o travesseiro e resolve então tirar os sapatos e as meias e a camiseta e esperar ela voltar deitado na cama. Quando ela aparece ela joga as toalhas num canto e fica junto da porta já tirando a mini-saia e virando de costas e tirando o sutiã rebolando devagar e depois tentando descer devagar a calcinha que fica grudada no rego e ela puxa de leve e depois solta e depois puxa e depois solta esfregando aquela tirinha de pano muito no rego e gemendo que não tá conseguindo tirar e pedindo que ele ajude. Ele vai até ela e ela empurra ele contra a parede e pergunta quantos anos ele tem e ele mente que tem dezoito e ela pergunta se ele tem namorada e ele mente que tem e ela pergunta então o que um cara como ele tá fazendo num lugar como aquele e ele responde que – “Curiosidade. Quero ver como é.”. Ela pisca um olho dizendo – “Entendi...” – e abre o zíper dele puxando o pau dele pra fora dizendo – “Eu vou ter que ser melhor do que ela...” – e então ela abre a boca e engole metade do pau dele chupando indo pra frente e pra trás enchendo o pau de saliva e lambendo e passando a língua no buraco do pau e depois indo pra frente e pra trás de novo e mais rápido e apertando o pau e mordiscando e indo pra frente e pra trás e mais rápido pra frente e pra trás e apertando mais e ele fechando e depois abrindo os olhos e olhando pros pentelhos dela e pensando que ela já deve ter chupado o pau de São Paulo inteira e deve mesmo é ter chupado todo tipo de pau que aquilo é uma puta vadia e que ele não devia tá ali e ela chupa mais rápido e vai pra frente e pra trás apertando mais e então ele grunhe que vai gozar e ela tira a boca e ele esporra nos peitos dela e ela esfrega a porra pelos peitos e pelo umbigo e ele senta no chão, e ela se afasta devagar, e senta na cama, e ele olha pro chão, e ela limpa um resto de porra com a toalha.
Ela deita de lado na cama, apoiando a cabeça no braço, e olha pra ele, esboçando um sorriso, e ele nota que ela é bonita, e depois nota na dobra da barriga dela um brilho de porra que vai secando, e de repente ele sente nojo, e olha em redor, e vê que as paredes são na verdade divisórias de escritório, e de todos os lados vem um barulho de corpos se batendo, e um cheiro de porra que não é só da dele, e o nojo cresce... Ele olha pra ela, e de repente ela é tão bonita, que sente desejo, e sente nojo, e sente raiva, e sente vontade de esmurrá-la... E depois... sente vontade de levá-la ao banheiro, e pedir que se lave, e pedir que vista uma roupa comum, e chamá-la pra ir lá fora comer um sanduíche, quem sabe uma pizza, quem sabe tomar um refrigerante... Ela o observa, parecendo analisá-lo – “Que foi, benzinho?”. Ele responde que nada. Ela diz – “Não esquece que você ainda não me comeu, hein?” – e passa a mão de leve lá embaixo – “Ainda nem tirei minha calcinha...” – e ele apenas a olha... E depois pergunta, a voz um tanto arranhada – “Por que você faz isso?”. Ela desvia o olhar, levantando um pouco as sobrancelhas, e depois baixando, e fazendo um beicinho, e suspirando – “É... não vai acontecer mais nada, não é?”. Ele baixa a cabeça, e lembra de momentos antes em casa... Estava falando no telefone cum amigo do colégio, que o chamava pra ir num puteiro, que quase todos já tinham dezoito anos, só ele que não, mas – “Você pode usar sua cópia falsificada do RG.”. Ele descolava cinqüenta reais com a mãe, e não se agüentava: no banho, batia duas punhetas em baixo do chuveiro. Assim, sem sequer cogitar quem seria a mulher que teria, se gordinha, magrinha, alta, baixa, loura, morena, carioca, paulista, filha única... O que importava é que ela teria uma xoxota, e ele pagaria sem questionar pra fodê-la... Isso foi o que ele, no fundo, pensou, mas agora está ali... – “É. Acho que não...” – ele responde, e ela – “Tst, tst, tst... Que decepção! você parecia prometer...” – “Pois é. Sinto muito.” – “Quer saber, se você parar mesmo por aqui então lá fora eu vou falar pros seus amigos que você não é de nada, mas de nada mesmo.” – “Vai em frente...”. Ela pára, cruza as pernas em posição de meditação, e o olha, sorrindo – “Que acontece com você, hein?...” – “Olha... eu acho... eu acho você bonita. E acho que você devia fazer outra coisa, não sei... isso aqui é... estranho... é deprimente... não sei. Pra ser sincero, só quero dar o fora daqui...” – “Ok!” – e ela dá um longo suspiro – “Fim de papo!”. Ela se enrola na toalha, e pede que ele espere, que ela vai até o banheiro se lavar. Ele se veste, e dali um pouco ela volta, se vestindo também, e dizendo – “Bom, são quarenta reais, né?” – no que ele responde que sem problemas, e entrega a nota de cinqüenta pra ela, perguntando – “Você tem troco?”. Ela olha e sorri – “Safadinho... vou precisar trocar, você espera?”. Por um segundo, o sangue foge do rosto dele. Ela percebe, e emenda – “Pode ficar tranqüilo que não vou te roubar, tá...” – e ele constrange-se que não, quê isso, tudo bem, e ela diz baixinho, num tom de voz que parecia agora estranhamente frágil – “Me espera lá com os seus amigos, que o tempo do quarto já acabou, tá?”. Ele volta pro estofado. No palco, um novo casal faz sexo enquanto dança flamenco. Os amigos o rodeiam, e perguntam como foi. Ele diz que tudo bem, e suspira fundo – “Tô pregado...”. Dali poucos minutos, ela aparece, com o mesmo sutiã, com a mesma mini-saia, exatamente como antes... Só que diferente. Ela estende o troco a ele, e, quando ele pega, ela retém sua mão, acariciando-a de leve, e diz, olhando em seus olhos e sorrindo um sorriso difícil e imperfeito – “Obrigada”. Os amigos o olham, a pergunta vibrando no ar, que no entanto ninguém faz, e ele jamais responde. 

sábado, 20 de abril de 2013

LUA NOVA

Me abraça, lua nova,
faz de meu ser uma festa,
com tua feminilidade agridoce,
com os teus roçares de pétala; 
já não vejo tuas pegadas
na terra à minha volta,
já não tenho tuas cores 
a me ditar a boa rota:
me abraça, então: é só o que importa...

Eu quis, um dia,
ser o louco da floresta,
cheio de visões, 
todas mui belas, 
mas sem serventia,
já que não se vive,
já que nada mais se espera...

Hoje, aqui,
ofereço essa sensaboria,
esse falso balançar das árvores,
em troca da certeza do vento,
em troca da certeza do mármore.
Saberei, sem ver,
que és tu à minha porta,
e então... nos abraçaremos,
e será isso, tudo o que importa.