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quinta-feira, 30 de maio de 2013

DOIS AFORISMOS

O que revolta a lagarta, a borboleta já esqueceu.

Ri por último, quem vive mais.

sábado, 25 de maio de 2013

JUVENTUDE F. C.


Juventude F. C.

O campão do Parque Hotel... Ele abaixa, cata uma pedrinha. Toma distância pra cobrança, a barreira logo ali, perto demais – “Eles tão vindo pra frente, ô juiz!” –, e bate... A pedrinha em três ou quatro quiques cruzando a linha do gol, imaginária, que o chão é de terra, e não há marcação. Gol do Juventude... Corre pro centro do campo, os amigos o cumprimentam – “Valeu, Alessandro!”. Placar: doze a cinco. Pros adversários. Restam, no entanto, pouco mais de vinte minutos – “Dá pra virar, dá pra virar!...”. Chuta outra pedrinha. Olha a um canto, na cerca – “Fecharam o buraco...”. Era por lá...
Dia de treino. Amanhã, às três, é jogo contra os moleques da favela lá de baixo. Seu Honório, vizinho deles da Rua Venezuela, e já um velhinho aposentado, aceita o convite pra ser técnico do Juventude. Está lá, entrando no campão, como todos, pelo rasgo na cerca, feita de arame em tela, se arrastando – “Ai...” – ele reclama... mas consegue. Lá dentro, o rodeiam – “Seu Honório, quê que o senhor acha da gente usar um líbero?” – “Seu honório, um vai ter que ficar na reserva.”. Ele apenas olha... – “Hã, líbero? É...” - e olha apenas pra bola... – “Dê cá ela, um instantinho.” – e pede que o goleiro se aprume lá debaixo das traves. Dá uma ajeitada com todo cuidado, limpando as pedrinhas em volta, toma distância... e chuta... pra fora. Pede-a novamente – “só mais uma.” – e desta vez, ela encobre o goleiro... – “Seu Honório, o senhor jogava futebol?” – “Hã? hein, jogar?... assim, que nem vocês...” – e baixando a voz... – “Faz muito Tempo...” – “Mas seu Honório, e o líbero?” – “Líbero?” – “É, a gente podia usar um líbero.” – “Ah, sim! acho bom, muito bom...” - e correndo os olhos lento pelo campão – “Líbero...”. O treino: o ataque contra a defesa, e a tática eles mesmo decidindo, que seu Honório só senta à beira do campo, ao pé duma árvore, e fica lá... Olhando tudo calado, na sombra.
No dia do jogo, de manhã, Alessandro vai à casa de seu Honório, pra lembrá-lo. Lá o velhinho o recebe, e desculpa-se que não poderá ir, que a esposa teve febre durante a noite, e terá que cuidá-la. Nada de técnico... Volta pra casa. Depois do almoço, o irmão é outro: brigam, e resolve não jogar. Nada de goleiro... Vai sozinho, e à uma, hora combinada, está lá, sentado ao lado da trave, esperando os outros. Logo chega o Vaguinho, atacante, meia-direita e ponta-que-sobra, com a bola e os uniformes, e o irmão mais velho, que veio apitar – “Ué, cadê seu irmão?” – já vem perguntando – “Não quer jogar.” – “Vamos lá falar com ele.” – “Não adianta.” – “A gente vai jogar sem goleiro, então?” – “E o Fabiano?” – “Tá sumido. Faz tempo...” – “Sabe onde ele mora?” – “Sei.” – “É longe?” – “Não. É aqui no bairro. A gente pode ir lá chamar ele, é verdade.” – “É, ué. Não custa nada.” – “E o resto?” – “Eles esperam a gente aqui, seu irmão explica.”. Correm à casa dele, que é furão, e às vezes é também a única esperança de alguém debaixo das traves. Chegando lá, estranham... tem um homem de olhos vermelhos na porta – “É o pai dele...” – o Vaguinho murmura... e um pessoal saindo e entrando de lá, sempre o cumprimentando, com ar sério, parecendo triste. Ficam, os dois, um tempo quietos, sem coragem de perguntar, até que o Vaguinho, que é mais de casa, se aproxima – “O Fabiano tá?” – “Tá, tá lá dentro. Entra...” – entram, e descobrem que a mãe dele morreu. E gelam – “É verdade... ela tava doente...” – Alessandro se lembra. Ele aparece – “Fala... que foi, tem jogo?” – “Não! tem não.” – emendam rápido – “A gente só... resolveu... dar uma passadinha aqui...” – “Ué, e cês tão de uniforme por quê?” – “...” – “Querem que eu agarre?” – “Não, acho que não... não precisa...” – “Eu vou lá. Peraí.”. Corre dentro do quarto, buscar a camisa de goleiro. Quando volta, já a vestindo, arriscam os pêsames, e ele aperta rápido as mãos que estendem, olhando pro chão – “Vamos, vamos lá. Que hora é o jogo?” – “Três...” – “Beleza. Dá tempo.”. No campão, o resto do Juventude, o juiz, e a molecada da favela lá de baixo, o adversário, que montava time sempre ali, na hora, com quem viesse, e não tinha nome. Quando Alessandro, que anotava todos os resultados num caderno, com escalação e tudo, inclusive especificando o autor de cada gol, foi perguntar-lhes o nome do time, caíram na risada. Um deles respondia – “Põe aí: sónabuceta!” – e gargalhavam. A administração do hotel, apesar de normalmente cobrar pelo uso do campo, meio que fazia vista grossa pros jogos da garotada, desde que não fizessem barulho, que incomodava os hóspedes. Era difícil, um dos motivos o craque deles, o punheta, que era fominha que só, sendo um tal de – “Tóoca punheta!” – e – “Porra punheta!” – e – “Caralho punheta!” – durante o jogo, que era freqüente um funcionário vir interromper, dizendo que os hóspedes estavam reclamando. Esse era o adversário: sem nome e sem camisa, só palavras chulas. E goleada. Mas enfim: bola ao centro. Começa o jogo... Sofrem um gol. E depois outro. E depois outro. E depois... Placar final: dezenove a seis. Mais um pro caderno de Alessandro, onde já constavam um dezoito a zero, e um vinte e um a um... Voltam pra casa até que felizes: fizeram seis gols!...
Ele ri. Chuta uma última pedrinha, e se dirige à entrada do hotel. Lá, pergunta ao homem detrás do balcão se pode fotografar o campo. O homem ergue a cabeça, medindo-o de cima a baixo – “Ué... e pra quê?” – “Só de recordação. Vinha jogar bola aqui sempre há... Bom, há treze anos atrás...” – “Ah... sei... tá, vai lá. Fica à vontade.” – “Obrigado, hein.”. E volta ao campão, bater suas fotos.

O leitor me desculpe: relendo meu conto, percebo que não tem uma unidade, não tem coesão, e leva nada a lugar nenhum. Mas, querendo alterá-lo, não posso. Me parece que digo o que é necessário, tudo e apenas. São recordações do campão... Recordo derrotas homéricas? Não: recordo seu Honório, que aliás não tinha esse nome, e o verdadeiro o esquecimento já me levou; recordo Fabiano – dele dizer o quê... – e a molecada da favela lá de baixo; e recordo, sobretudo, o Juventude Futebol Clube, que do nome só tinha a juventude, pois não era clube, sendo mínimo o futebol. Na verdade, éramos só um bando de perebas, excluídos das aulas de Educação Física, que não se cansavam de perder e, no fazê-lo, aprender um pouquinho que fosse. Saudades.

sábado, 18 de maio de 2013

VIDA


                                                                 VIDA

                                                               Ela chegou assim, de manhãzinha,
                                                               aérea e leve, misturada ao toque morno
                                                               do sol que despontava: ela chegou,
                                                               e aos poucos vem me dando casa...

                                                               No rosto, traços de um país distante,
                                                               e no nome um delicioso gracejo...

                                                               Se eu me ocupava com outras rimas,
                                                               em alpinismo desesperançado,
                                                               posso, agora, fincar o meu traçado
                                                               em mais quotidianas linhas:

                                                               as que um sorriso faz,
                                                               as que, ponto a ponto, vão se firmando,
                                                               quando olhar encontra olhar...

                                                               E assim termino este poema:
                                                               com a lembrança de algo que se inicia,
                                                               sempre que os tenho, os olhos dela,
                                                               me procurando pelas cercanias:
                                                               uns chamam um tipo de jogo
                                                               – eu chamo um tipo de vida.   

terça-feira, 14 de maio de 2013

NA PRAÇA DO RELÓGIO


Na Praça do Relógio

...Na sala de aula, certos arranhões no revestimento da parede lembram os rastros de espuma deixados por um barco nas águas duma baía, outros uma nebulosa ou a própria Via Láctea vista de fora, e outros ainda os grandes lábios de Janaína. No batente da porta, há teias e uma pequenina traça enfurnada numa ranhura da madeira. Engraçado... – “Será que as aranhas não comem as traças?...” – pensa consigo. Inspira fundo... – “E a Via Láctea vista de fora?... Como eu sei isso?... De onde veio a imagem que tenho na cabeça?...”. Expira. Vasculha a memória... – “Talvez uma foto de revista... Com certeza uma simulação... Não dá pra mandar satélite pra fora da Via Láctea...”. Inspira... – “Ou será que dá?”. Medita um segundo... Expira – “Sei lá.” Abre um livro. Doutro lado da sala, um de terno e gravata cochila com a cabeça caída sobre a maleta; lá no fundo, duas outras, uma de saia, outra sem sutiã, discutem sobre o trabalho de fonética que é pra daqui a uma semana, e que ainda nem foi começado, e depois acabam emendando numa troca de receitas de pudim; e mais ninguém. Há rumores de greve, e em situações como essa, sobretudo em noites de quinta-feira, é comum os alunos receberem em seus joelhos a visita duma súbita fraqueza, e então darem o sinal ao ônibus errado, e baterem em casa mais cedo. Fecha o livro, abre o caderno. Rabisca um desenho. Lembra de quando desenhava... Faz muito tempo. Na infância, seus cadernos eram cheios de desenhos de animais selvagens, super-heróis, paisagens... Rabisca um rosto de mulher. Começa pelo nariz (ele sempre começa rostos pelo nariz...), em vista diagonal, uma curva suave terminando num pequenino triângulo, depois o queixo... Pára um segundo, examinando o que fez... – “Deixa pra lá...” – murmura. Abre o livro – “Mal chegou, Drogo apresentou-se ao Major Matti...”. Um ruído de passos incrivelmente decididos vem chegando lá do fundo do corredor e já cruza a porta. Ergue a cabeça: lá estão três membros duma chapa que concorreu e não venceu a última eleição pro Centro Acadêmico... Recebe um panfleto. Um de bigode fala, enquanto o de terno e gravata agora cochila de olhos abertos e as duas trocam receitas por telepatia. Constrange-se e presta atenção ao que o homem diz... Está chamando a todos prum ato na Praça do Relógio, um ato de repúdio à política do reitor que não contrata novos professores, um ato de repúdio à política do estado que não cede aos pedidos de aumento da cota do ICMS pras universidades, por fim um ato de repúdio à política imperialista dos EUA... Ele fecha o livro, enquanto seis olhos acompanham seus movimentos – “Vamos lá, amigos?... precisamos reunir o máximo de alunos neste ato, é muito importante...” – diz o de bigode – “Claro, claro...” – ele responde, juntando seu material, e agora um ruído de seis pés incrivelmente decididos e dois adjuntos percorre os corredores da faculdade. Alguns dois outros alunos são pinçados em outras salas, e já estão nas escadas, fora do prédio. O de bigode propõe irem à ECA – Escola de Comunicações e Artes, logo ali – tentar reunir mais pessoal. Todos concordam. Vão descendo a avenida... o de bigode engatando uma conversa com o outro do grupo dos três, um sem bigode (o terceiro é uma baixinha, que leva uma faixa enrolada nas mãos). Parecem continuar algo que foi interrompido pelas visitas em sala... o de bigode – “Quanto àquela tese do Max Weber, que você falou, de que um país socialista só poderia ser administrado por uma burocracia, e que portanto não seria uma sociedade sem classes, pois haveria uma classe privilegiada, a dos burocratas do Estado, você precisa entender que não precisa ser daquele jeito. Se você pega a obra de Lênin, você vai ver o que eu tô te dizendo. O comunismo que a gente pretende não é aquele da União Soviética, é um comunismo diferente...” – “Sei...” – “É. É possível...” – “Mas seria algo conquistado por meio duma revolução?” – “É. Seria.” – “Tá, e o que vem depois duma revolução não é, via de regra, uma ditadura?” – “E nós vivemos o quê?” – e pára, acendendo um cigarro, mirando o alto, pr’além das copas das árvores. Dá uma tragada funda, depois soltando lento a fumaça – “É a ditadura da burguesia...” – diz, correndo a vista em redor, onde só há árvores, dormindo o sono apolítico dos vegetais.
ECA. O C.A. de lá não está colaborando, diz o de bigode – “Acham que os alunos estão em refluxo... essa é boa!”. Os dois alguns pinçados na Letras sumiram, mas o grupo dos três nem dá pela falta, e segue em frente. Os corredores, e salas, estão vazios. Num mural, o cartaz de Homens de papel, que será encenada no Teatro Laboratório. Finalmente uma sala com aula, em que uma numerosa dezena de alunos ouve letárgica o de bigode chamá-los ao ato na Praça do Relógio, e vai girando a cabeça, de boca aberta, como jacarés tomando sol à beira dum rio, enquanto o de bigode caminha até a porta – “Quem vai nos acompanhar nesse ato?... Alguém?... Pessoal, é muito importante a participação de todos, a nossa universidade está sendo sucateada... Bom, se alguém se interessar, pode nos alcançar no corredor, ok?... Brigado pela atenção.” – diz, e depois vira as costas, e fecha a porta, seguido pelo vácuo silencioso dos olhos lá de dentro. Continuam pelo corredor. Uma sala vazia, outra sala vazia, numa terceira um funcionário corcunda, vestido de azul, passando um rodo no chão. Levanta o rosto na direção deles – “Hã?... Cês tão procurando quem?... Ah... Iii... Tst, tst. Tem aula hoje aqui não, rapaz, só uma ou outra...” – diz, abrindo um franco sorriso de três dentes no rosto enrugado. Deixam-no... na última sala, pelo vidro da porta podem ver um professor velho e calvo, os parcos fios de cabelo completamente brancos, percorrer cuma aluna as linhas dum texto aberto no colo dela, enquanto outros dois apenas ouvem. O de bigode entreabre a porta, e pede licença pra falar rapidamente à turma. O professor assente. Entra, e fecha a porta, o resto do grupo ficando de fora. Fica lá alguns minutos e meio, enquanto observam, de fora, apenas os olhares baixos dos alunos, e do professor. O de bigode abre a porta pra sair, e podem ouvir o professor murmurar – “Boa sorte.” – antes que a feche. Terminadas as salas, deixam o prédio, e estão no estacionamento, lá no fundo o Teatro Laboratório, e à frente, o belo melancólico do vazio da Praça do Relógio. O de bigode se despede – “Bom, gente... é isso aí. Acho que duma forma geral a ação de hoje foi positiva, os alunos nos ouviram...” – “Tanto a Letras quanto a ECA tavam vazias...” – interrompe o sem bigode – “É, tavam... Acho que a gente pode com ações mais incisivas trazer mais gente e formar um movimento mais sólido, é só uma questão de continuidade no trabalho. O pessoal vai assimilando... Bom, eu vou caminhar até a História, alguém me acompanha?... Não?... Então até, pessoal, brigado pela participação, e a gente continua amanhã.” – e sai. Os outros dois, o sem bigode e a baixinha, estão agora de mãos dadas e só então ele percebe que são namorados. A baixinha senta num banco da praça, o sem bigode logo depois, passando o braço pelos ombros dela, e ele pode ouvi-los cantando enquanto se afasta – “Morte bela, sentinela sou, do peito desse meu irmão, que se vai...” – e circunda o laguinho, e pára. Um vento frio vem arranhar o rosto, enquanto apenas olha... longe, as luzes do Shopping Villa-lobos e das dezenas de prédios à beira da Marginal Pinheiros espalham-se pelo rio, e por um brevíssimo segundo, parecem compensar o céu sem estrelas, e sem lua.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

NO AR...

No ar, um gosto de espera,
de promessa de chuva e de verde;
no ar, teu nome, ritmado em meu peito...

como causa, e como efeito,
teu nome cerca minha noite e meu dia,
e dos vagões a mim atados, meu fardo,
ele, teu nome, suave me alivia...

Ah... Samira...
Teu nome eu respiro,
e no ar desse momento
consigo repelir o esquecimento,
do modo mais preciso:
sorvendo o ar de teu nome,
grudado às paredes e ao chão,
da falta em que habito.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

NÁUFRAGO


Náufrago

...Vem pela calçada, apostilas e resumos na mão, musiquinhas pra facilitar a decoreba no assobio. Passa a porta do cursinho, cruza a rua, e senta à porta do bar. Só mais essa vez, como sempre. O peso de oito horas de trabalho parece às vezes maior do que o peso de todo um futuro a escolher. Ou não. Vai ver que é do futuro mesmo que se foge. Enfim, suspira e pede uma cerveja. Dali cinco minutos, chega o amigo – “Mais uma!” – já vem pedindo. Termina um copo – “Só vou tomar essa, depois subo.” – diz, o amigo franzindo o pára-vento – “Ah!... Qualé?... Você não vai assistir aula da Ruth!”. É a de Literatura, algo de que ele gosta bastante, e hoje o tema é José Lins do Rego...
         Ela vai passar o Fogo morto...
         Ah, é?
         Tá na lista da Fuvest...
         Ah, é?
         Vou ver se consigo ler... minha única chance é a USP...
         Ô pedrão! vê mais uma?
Queria ter a inconsciência tranqüila e a aptidão alcoólica do amigo. Mal enche o copo, pede outra, entornando o primeiro:
         Ah!... hoje tá foda...
         Quinta-feira é foda....
         Depois de domingo e antes de sábado é foda...
         É...
         Se é...
Ombros, pernas e braços vão amolecendo...
         Preciso mijar...
         Vai lá...
O banheiro é uma privada branca por fora e marrom por dentro, sem pia. Ele abaixa a cabeça, o mundo dá uma girada meio brusca, ele tenta se apoiar na parede e sem querer aperta o botão da descarga. Um riso espirra por entre os lábios, depois outro, e quando vê está gargalhando... Volta:
         Quer saber, eu subo na segunda aula!
         Grande garoto! Aula da Ruth não dá...
         Me lembrei duma piada.
         Ôpa! manda. Pedrão!... siiipf!
         O português tava chamando o elevador...
Passa a aula da Ruth, depois a segunda, que ninguém se lembra mais de quem é, e estão lá, ele gastando todo o estoque de piadas que só agradam a bêbados, e o amigo rindo às lágrimas. Pode-se ver já um pelotão de marronzinhas sobre a mesa...
         Cara, me bateu uma fome... vou pedir um pastel.
         Pede dois...
Vem o pastel, vai o pastel, desce mais uma, sai pra mijar, volta...
         Cê vai prestar o quê mesmo?
         Engenharia.
         Civil?
         Civil.
         Difícil...
         É. E você?
         Tô entre Economia, Matemática, Física, Filosofia e História...
         Pfuvzzz!...
O amigo cospe a cerveja, e já estão rindo de qualquer coisa.
Onze horas:
         Preciso ir embora...
         Eu também...
         O negócio é pedir a conta...
         Pois é...
         Mais uma?
         A saideira...
         Pedrão! a saideira!
É a rodada das saideiras. Uma, duas, três...
         Pedrão! Agora a últchima.
         Com cherteza...
No ônibus, o cobrador diz que a passagem é dois e sessenta e ele não contém o riso:
         Dois e sessenta, é?
         É...
         Dou dois e sessenta?
         É!
E leva a mão à boca, sacudindo os ombros, em seguida respirando fundo...
         Se você dchiz...
E entrega o dinheiro, passa pela roleta e senta, controlando-se.
Em casa, todos já se deitaram. Sobe as escadas engatinhando, de repente as tripas parecendo sofrer um cálculo logarítmico, e um gosto de fagocitose vindo à boca... Corre ao banheiro, põe a cabeça na privada, e um trem vindo a cem quilômetros por hora, em superfície sem atrito, desliza pela garganta e espatifa-se na água. Pisca lento, duas vezes, observando o conteúdo... lê o futuro: fiapos de macarrão, cascas de lentilha, carnes moídas e cacos de berinjela – “É marcante a tensão entre o positivo e o negativo, entre formas lisas, suaves, e outras recortadas, agressivas...” – opina uma das namoradas de Pablito, quando este lhe mostra uma nova tela, no filme Os amores de picasso. – “Num dá pra entender nada. Acho que vou ser economista, ou crítico de arte.” Segue pro quarto. O que quer que estivesse na cama, foi ao chão. Deita, e está numa balsa, perdido em alto mar. As ondas batem na proa, e lambem o fundo, e o mundo balança... – “Uôoo...”. Uma mais forte golpeia a traseira, fazendo com que o barco embique na água... – “Uôôooo...”. Se debate e agarra à cabeceira – “Vai virar!” – por um segundo seu destino parecendo ser os tubarões. Até que as ondas vão, aos poucos, cessando, e o tempo azulando, e o mar respirando sereno, marolando na quina da cama, e pode largar a cabeceira, e fechar os olhos, e esperar um cargueiro, um coqueiro, ou quem sabe o dia seguinte.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

A SAUDADE

Olho o mar, verde esmeralda,
Mas não há mar, nem cor alguma.
Olho o céu, todo estrelado,
Mas não há céu nem estrelas, apenas brumas.

Olho... a ti, Samira,
mas tu não estás, só longe, muito longe...
Enquanto meu coração bate descompassado,
como se tivesses a cabeça pousada em meu peito:
Mas não há peito... só o gasto tambor
de uma saudade que cisma em ver o que não há,
porque sabe o que é preciso
neste agreste meio de caminho.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

PASSEIO NA PAULISTA


Passeio na Paulista

...Era uma comédia romântica, como todas as outras. Lá estavam a madura bem-sucedida pragmática que no fundo era uma colegial suspirante romântica, o aventureiro cafajeste niilista que no fundo era um solitário ressentido... romântico, e a dona-de-casa pós-romântica resignada – elo entre os dois – que no fundo era mesmo uma dona-de-casa pós-romântica resignada, único ser, como se vê, em que essência e aparência não se dissociavam. No final, não é preciso dizer, os primeiros se casam, enquanto a última enxuga lágrimas cum lenço branco. É como se o produtor autor diretor ou seja lá que raios quisesse dizer que a vida é isso aí, é sonhar, um pouco depois casar, ter filhos, e, com o tempo, e as quedas que ele gentilmente nos cede, é resignar-se. Ou não. Talvez o diretor autor produtor ou seja lá que raios não quisesse dizer nada, e não quisesse mesmo coisa alguma além de garantir a renda do pipoqueiro. E a sua própria, claro está. O fato é que eu saí de lá sem saber bem o que dizer. Achei melhor, e creio que sabiamente, passar a vez, ou seja, esperar até que ela se manifestasse, o que não levou três passos – “E aí?... Gostou?” – ela perguntou, assim, de olhinhos baixos, como a semear suspiros nos buracos da calçada. Pois é camarrrada amante de leituras densas, eis o que a vida não se cansa de nos arrumar. Devia eu dar mostras de minhas incursões culturais? Ora, qualquer um sabe que não. Há que se proteger a identidade secreta!... Sob pena de sermos interceptados, e neutralizados, como é freqüente. Sei que afastei meu discurso anti-cinema-formulesco-hollywoodiano, que já estava bem me coçando as têmporas, como quem afasta uma mosca varejeira, dessas que batem bem na hora da sobremesa, doidas pra inviabilizar o nosso pão-doce. Confesso: sou fraco. Não posso defender tese alguma. É surgirem na minha frente olhinhos amorosos de sonhadora umedecida, prontos a enxergar nos meus a grama verde onde erguer paredes alvas, telhados vermelhos e janelas floridas floridas, donde se vê dois ou três moleques remelentos correndo alegremente... Ah, camarrrada, que é a verdade? Quem sabe defini-la? Eu não sei, sei é que esse tipo de visão faz todas as minhas convicções parecerem meras rabugices, mesquinharias. É como a natureza, com seus vendavais e terremotos que, quando querem, nos mostram que podemos, sim senhor, pensar o quanto quisermos, e podemos, sim senhor, edificar o quanto quisermos, que, não senhor, não adiantará nada: seremos sempre caniços, e nada mais. Enfim... o de sempre: o chão treme, e meu discurso, meu nobilíssimo vocabulário, vira pó. Olhei-a sinceramente, e respondi – “Gostei. E você?” – ao que ela respondeu, ar de satisfação – “Gostei. Muito.” Acho que fui inconscientemente honesto. Penso que não gostei, mas no fundo devo ter gostado, embora eu realmente discorde disso. Sei lá. Sei é que eu disse que gostei, e ela disse que gostou, e muito, e que então começou a chover, o que me fez refletir que às vezes a vida se assemelha a um filme ruim, e que isso não é mau. Ela sacou do guarda-chuva, prevenida como deve ser, e eu, despre... Bom, banalidades de lado, seguimos em frente, dividindo o dela, calorosamente mudos, nem aí pra tarde que se despedia molhada e cinzenta por entre os prédios. Coisa linda. Seguimos em frente!... Até a esquina, onde vive uma dessas fábricas de hambúrgueres, em que entramos, devo dizer, por sugestão minha. Enfim, mente poluída pede um corpo poluído. O fato é que ela gosta de molho barbecue, eu prefiro catchup, mas isso não tem importância alguma: as batatas-fritas nos unem!... – “Engraçado. Várias passagens do filme me lembraram você.” – ela disse, ao que eu respondi que não sabia bem o que dizer, a menos que ela me dissesse quais passagens – “Ah... não sei... o cara tinha um ar assim, meio outsider, meio desapegado. Sei lá. Quer dizer... no começo, né. Depois deu pra ver que não era bem isso.” No copriendo. Ou melhor: compreendo. Compreendo que ela compreende bem mais do que eu pensava, uma vez mais. Ah... as mulheres... sempre nos analisando, descavando padrões em nosso comportamento, formulando leis gerais pra nossa personalidade. E há quem diga que elas pensam com os ovários. Verdade é que parecem agir assim apenas com o sexo oposto, que no resto... valha-me deus. Eu disse isso? Não, não disse, mas é certo que pensei, sinal não só de que existo, mas também de que, politicamente, erro. Ou não. Sei lá. O que sei é que não disse nada, só tombei a cabeça meio pro lado, dei de ombros e belisquei uma batata, meio sorrindo, ao que ela meio sorriu também. Êlha copriende. Quando saímos, a chuva parara havia algum tempo, e o céu estava começando a limpar-se, deixando entrever quaisquer estrelas, com o quê não pude reter um – “É... apesar de eu ter crescido no verde, isso aqui até que é bonito...” – e ela gostou – “É lindo. Adoro a Paulista.” – e eu arrisquei – “E tá um clima gostoso, agora, né?... Nem calor nem frio... Tá bom pra caminhar...” – e ela, baixando os olhos, num semi-sorriso só de lábios – “É... tá mesmo...” – e eu – “Não é?...” – e ela – “É...” – e eu – “É...” – e ela, num breve, quase imperceptível suspiro – “É...” – e foi quando dum lado eu pensei que ela já estava quase no ponto, e doutro pensei que eu não devia pensar assim, que talvez mesmo eu não pensasse realmente assim, apenas soltasse dessas vez por outra, naquelas, de canto de boca, reflexo dos muitos anos de frases feitas sobre mulher e cerveja, em verdade não sei, sei é que seguimos em frente, em silêncio, mas não daqueles que pesam, ao contrário, são expressão duma certa leveza de alma, leveza um tanto trepidante, é verdade, naquela mistura que todo aquele que já namorou um dia conhece bem, enfim... Seguimos em frente, rumo à Consolação. Até que ela falou – “Mas você disse que cresceu no verde?... Você não é daqui?” – e eu gostei da pergunta, que a resposta que tenho sempre cai bem a dois... Ah, o lado bom de não ter raízes... Sofre-se, é verdade, mas quanto não se tem pra contar, kammarada, quanto não se tem pra contar!... – “É uma história complicada, mas posso dizer que até os quinze vivi no interior.” – respondi, e ela – “Ah, é?... eu também!... quer dizer, só a infância, né. Mas eu também sou do interior. É outra coisa, né?” – e eu me empolguei – “Se é. Onde eu morava tinha um rio enorme e limpo, onde a gente mergulhava, e minha vida era explorar trilhas no meio do mato de bicicleta, atrás de córregos, cachoeiras... Se é outra coisa!... Se é!” – e ela também – “É... onde eu morava era uma chácara, vivia aparecendo bicho por lá, e tinha um quintalzão, eu pendurava uma rede na varanda e ficava lá, viajando... Eu adoro o verde, a natureza, sabe?” – e eu fui em frente – “É... eu também. Não, e a terra? Já reparou que aqui não tem terra?... As crianças daqui nunca vão saber o que é um bicho-de-pé...” – e ela me seguiu – “É mesmo, né... Era gostosinho de tirar...” – e eu emendei – “Me lembro... eu era porcão, tinha tanta coisa pra fazer que achava banho uma perda de tempo. Às vezes ficava três dias sem tomar.” – e ela emendou – “Eca!... eu também, sabia?” – e eu – “Você!” – e ela – “É, ué... Toda criança, eu acho. Tenho um priminho de seis anos que também não gosta de banho, só toma se for comigo...” – e foi quando dum lado eu pensei que o ponto tinha chegado, e doutro pensei que esse tipo de pensamento um dia me levaria à ruína, embora fosse só pensamento, coisa que, efetivamente, ninguém lê, mas enfim, eu tive de dizer, assim, meio entredentes – “É pequeno mas não é bobo, esse seu priminho...” – e ela só sorriu, e eu tive certeza. Veio um cruzamento, Pamplona? Peixoto Gomide? Eu sei lá, sei é que vinha um Corsa, e ela não viu, ou fez que não viu, e já ia atravessando, quando eu a retive pela mão – “Cuidado!” – e ela, tomando, ou fingindo que tomando, um sustozinho – “Upa!” – e me apertando a mão, que não soltou mais, nem eu, e seguimos em frente... seguimos em frente!... diria, talvez, colegialmente. Doutro lado da rua, diante do metrô, sim senhor, a natureza fez seu trabalho, e eu, como sempre, nunca mais quis ter qualquer idéia. Pensar me deprime. Por que será? Estará o problema no mundo, ou no ato?... Sei lá. Sei é que o pátio do Masp, com seu escurinho, devia ser tombado pelo patrimônio histórico, e protegido a todo custo, se é que já não foi, perdoe-me a ignorância, não sei mesmo muita coisa. O que fizemos? Ora, nada demais, por certo, mas é que belo mesmo é só dizer assim, numa curtinha, sem muito bafalhafa, sem muita filosofia, naquela simplicidade que o velho bandeira, sábio dentre os sábios, sempre soube ser o bem maior: a vida é bela. A vida é bela, meus amigos! Esqueçam de Deus, esqueçam do diabo, esqueçam tudo que não interessa verdadeiramente, que a vida, simplesmente, é bela. Enfim, o ponto de ônibus chegou, o dela, obviamente, e ela disse que precisava ir, e eu disse que tudo bem, e ela me pediu que ligasse, e eu disse que com certeza, e ela foi, e eu resolvi que ia descer a Rebouças a pé mesmo, e que ia pegar o ônibus do outro lado da ponte, e que essa noite ia dormir, sim senhor, como havia algum tempo não dormia. 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O NOME

Te procuro, vida,
em sonho, envolto em treva,
e quanto mais minha alma precisa,
mais é certo que tu não te entregas...

Quero teu beijo, vida,
quero o toque dos teus dedos,
mas, quanto mais anseio, e anseio,
menos tu te arriscas...

Teu beijo...
Como desespero! e meu olhar,
diante de tua imagem, sempre a mesma,
afasta tudo que não é sonhar...

Sim, teu beijo.
E tua pele junto à minha, despida:
é o que minha língua desenha,
quando diz teu nome:
calor que me consome,
doce e terna cantilena,
- eu disse "vida"?
Não é certo...
És bem mais que isso...
És, simplesmente... Samira.